Hoje vi um senhor com cartaz, a pedir. A pedir numa das ruas principais de Kingston, no Canadá. A pedir. Não é o primeiro, não será o último.
Se fechasse bem os olhos, diria que estava algures num país pobre ou mais pobre do que o Canadá. Afinal de contas, todos os indicadores apresentam melhorias significativas relativamente ao ano passado, crescimento económico, qualidade de vida, enfim, basta olhar para eles.
Contudo, cada vez mais me apercebo da elevada disfuncionalidade que grassa nesta sociedade. Uma camada rasteirinha, que vive de subsídios e completamente encostada ao chão, totalmente ausente da sociedade. Uma classe média baixa que vive de part-time toda uma vida ou ainda um grupo de pessoas que fazem dos trabalhos relief, que mais não são do que trabalho temporário com uma pitada de fantasia, o auxílio para as despesas. Dessa forma, aniquilados numa qualidade de vida reservada a grupos da sociedade que fazem o seu trabalho das 8 às 5, sobrevivem. Fazem aleluia a um país fantástico. Por necessidade, por quererem acreditar, por não poderem mudar. Um sinal, importante.
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3.14.2013
3.11.2013
A revolução de Vasco Lourenço
A democracia é uma coisa chata, principalmente quando os tempos são difíceis.
Haja revolução, pena não haver ideias nenhumas sobre nada. As políticas não prestam, as pessoas no governo não prestam, Vasco Lourenço presta. Quem mais iria para o Governo? E como se articula esse facto com o argumento de que os políticos são todos uns ladrões incompetentes? Quem iria formar governo? O PCP e o BE? Eles também não parecem entender-se...
Creio que na Irlanda estão também a preparar uma revolução...ou talvez tenha ouvido mal e estão só a tentar que o país consiga voltar a proporcionar melhores condições de vida aos seus habitantes.
Visto que o problema de Portugal é a incapacidade de a economia crescer e criar empregos e riqueza, espero que o capitão (Chávez era comandante, daí os melhores resultados) se refira a uma revolução que incida sobre esse problema. E que ao mesmo tempo, sem apoio do povo nem da Europa, que pague do seu bolso a diferença entre os rendimentos atuais e o valor para o qual descerão se a sua revolução for avante.
Estou em crer que ele está apenas sensibilizado com a morte de Chávez. Compreensível.
Compreendo as causas implícitas do comentário do Vasco Lourenço mas as pessoas têm que assumir alguma responsabilidade pelas afirmações que fazem. Qualquer dia o contexto é a substância e isso não faria muito sentido.
A notícia do Jornal Público.
2.24.2013
Grândola, Vila Morena
Uma canção com um significado precioso na história portuguesa está agora tornada numa amálgama de coisas que são tudo e coisa nenhuma e que pretendem demonstrar a revolta contra os governantes eleitos.
A questão que coloco não é se faz sentido, a questão é a escolha. A canção dos Deolinda teve impacto porque surgiu da inspiração do contexto específico. A "Grândola, Vila Morena", em repetição constante, é um desrespeito a quem vivia a ambição de um futuro de liberdade. É um desrespeito às gerações que estão agora a tentar lidar com este país.
A "Grândola, Vila Morena" não deve ser um canivete suíço que serve para tudo desde que seja para protestar; não, serviu no novo amanhecer, pela democracia, pela liberdade.
2013. Grândola, Vila Morena. Não, 2013, país livre, uma democracia, com problemas é certo, como muitas. Um país com sérios problemas económicos e sociais que originaram um problema financeiro. Grândola, Vila Morena serve para a revolta contra a falta de trabalho, para que se lixe a troika e o governo. A música não tem significado neste âmbito.
Se queremos mudar o país, passemos a olhar para o futuro e não a invocar sempre o passado para lidar com as novas realidades. Criemos músicas novas, criemos o futuro.
A Portugal falta futuro, falta comunidade, falta visão e energia, falta compromisso e respeito, falta honestidade, falta liberdade, mas não aquela a que a música e o contexto histórico se referem. Falta liberdade e vontade de abraçar o futuro, de criar um país, de renascer.
2.20.2013
Brain-storm! 20-02-2013
Governo já espera recessão de 2% e mais um ano para cumprir défice
Por vezes parece que isto não passa tudo de um mero exercício académico. A famosa espiral?
Antes o Relvas que tais selvas
O Relvas já deveria ter saído há muito mas o insulto fácil e obviamente deslocado (fascista?), em situações em que se poderiam colocar perguntas importantes, não é, sem dúvida, a melhor forma de mostrar o descontentamento.
Deadbeat nation
Deadbeat nation
Nearly half of Canadian provinces had to be bailed out in the 1930s. Ottawa has since introduced transfer and equalization payments to the provinces, but that hasn’t kept their finances stable, nor does it mean the federal government won’t feel obliged to bail them out.
Hum... Interessante.
2.19.2013
Medir o (in)sucesso: uma lição
É muito perceber a tónica do Bill Gates na análise objetiva do que funciona e do que não funciona, numa gestão eficiente dos recursos.
Vale a pena ouvir com atenção e utilizar esta mensagem como uma metáfora da discussão sobre a reorganização do Estado. Preferia que fosse pensar a sociedade e não apenas o Estado mas talvez isso fosse pedir muito.
Aqui fica.
2.17.2013
À volta da mesa dos partidos políticos
Será que existe alguma explicação razoável para que os telejornais e restantes orgãos de comunicação social façam uma ronda diária pelas declarações dos partidos políticos?
Teremos esquecido que os partidos políticos não são a política? Ou que existe mais Portugal do que o António José Seguro diz ou que a Catarina Martins vocifera?
2.12.2013
A mola de Deus
As superstições advêm de vários factores, nomeadamente, sugestionabilidade, coincidências e um património de narrativas que lhes poderão dar contexto.
Segundo o jornal Público, esta fotografia foi obtida pelo repórter fotográfico Alessandro Di Meo, da agência noticiosa italiana Ansa, depois do cardeal Angelo Sodano ter classificou a renúncia de Bento XVI como um "trovão em céu sereno".
Esta situação por mais explicações que tenha, e elas são simples, estará sempre envolvida como marcador de livro nas narrativas Católica e Cristã. Deus comunicou a sua mensagem. A segunda parte agora será tentar descodificar a mensagem, o que certamente estará no âmago dos argumentos que a criaram.
Por mais inaudito que possa parecer, este tipo de ratoeiras esta por todo o lado. A questão Ninguém percebe muito bem o que se passa, de tão embrenhados que estão numa narrativa que é completamente dominadora.
Por outro lado, não é mais do que uma versão da realidade, que se assume totalitária pelo poder que apresenta. O Papa Bento XVI tem um poderoso argumento contra este argumento que faço, o que ele designa como "relativismo moral". Não rejeitando o argumento, eu prefiro ver esta e outras realidades semelhantes com outros olhos. Não porque ele ou os cristãos estejam errados; não, apenas porque tenho outra perspetiva.
As semelhanças com a discussão da austeridade vs crescimento em Portugal é uma ratoeira semelhante. Embora algumas pessoas já tenham referido, a questão não é essa. Ao focarem-se apenas no meio e forma, na bicicleta, para o efeito do exemplo, esquecem-se para onde querem ir, o objetivo, a visão. O risco? Andar sempre às voltas, completamente perdidos, a gastar os pneus.
A mola da mente mostra o seu poder.
Por outro lado, não é mais do que uma versão da realidade, que se assume totalitária pelo poder que apresenta. O Papa Bento XVI tem um poderoso argumento contra este argumento que faço, o que ele designa como "relativismo moral". Não rejeitando o argumento, eu prefiro ver esta e outras realidades semelhantes com outros olhos. Não porque ele ou os cristãos estejam errados; não, apenas porque tenho outra perspetiva.
As semelhanças com a discussão da austeridade vs crescimento em Portugal é uma ratoeira semelhante. Embora algumas pessoas já tenham referido, a questão não é essa. Ao focarem-se apenas no meio e forma, na bicicleta, para o efeito do exemplo, esquecem-se para onde querem ir, o objetivo, a visão. O risco? Andar sempre às voltas, completamente perdidos, a gastar os pneus.
A mola da mente mostra o seu poder.
2.10.2013
Grande Reportagem da SIC - "A Fraude"
2.09.2013
Canadá, Portugal e o comunismo: uma interrogação

Por mais que me tentem explicar a razoabilidade da narrativa do Partido Comunista Português (PCP), eu juro que não percebo como é que neste momento da história ainda vivem encapsulados numa prisão de vidro. Poderei dizer o mesmo da CGTP. A existência destas organizações fez sentido mas a sua ação atual é um autêntico anacronismo.
Poderíamos pensar que só em Portugal é que existe um partido comunista, sinal do nosso atraso de desenvolvimento. Acontece que tal não é verdade, como seria expectável.
Por motivos óbvios, vou centrar-me no Canadá e no seu partido comunista e no PCP.
O Partido Comunista Canadiano afirma no seu ponto primeiro:
Down through the ages, working people have dreamed of a world of freedom and equality, an end to exploitation and misery. Throughout the twentieth century, millions of people around the world rallied to the cause of socialism. Today, big business and its boosters maintain that socialism is finished, that human development has ended, and that capitalism will endure forever.
O Partido Comunista Português afirma também no primeiro ponto do seu programa:
O Partido Comunista Português, partido político da classe operária e de todos os trabalhadores, inteiramente ao serviço do povo português e de Portugal, tem como objectivos supremos a construção do socialismo e do comunismo – de uma sociedade nova liberta da exploração do homem pelo homem, da opressão, desigualdades, injustiças e flagelos sociais, sociedade em que o desenvolvimento das forças produtivas, o progresso científico e tecnológico e o aprofundamento da democracia económica, social, política e cultural assegurarão aos trabalhadores e ao povo liberdade, igualdade, elevadas condições de vida, cultura, um ambiente ecologicamente equilibrado e respeito pelo ser humano.
Como sempre, na melhor tradição portuguesa, está tudo aqui, incluindo o socialismo, o comunismo, a libertação da opressão feito pelo homem e a promoção da ciência, tecnologia, cultura e ambiente. Mais completo seria impossível.
Sendo que o Partido Comunista Canadiano apresenta-se sozinho às eleições, constatamos que nos primeiros 5 mais votados não há sinais deles. Os Verdes canadianos estão lá, mas não os comunistas. Interessante seria analisar se as diferenças dos partidos verdes dos dois países são muito significativas. Julgo que sim, daí o PCP se unir aos Os Verdes nas eleições em Portugal.
O Partido Comunista Português nas últimas eleições ficou em penúltimo lugar, associando-se aos Verdes, numa votação de 7.90%. Ora, Partido Comunista Canadiano mais Verdes canadianos obtiveram nas últimas eleições uma percentagem de 3.93%, 3.91% dos verdes mais 0.02% dos comunistas.
Sendo Os Verdes portugueses uma mera extenção do PCP em termos ideológicos, infelizmente, 7.90% do PCP+Verdes é cerca do dobro do Partido Comunista Canadiano mais Verdes canadianos.
A minha questão ingénua é: o que quererá isto dizer? e terá alguma significado?
A expectativa de schadenfreude é desporto em Portugal
A expectativa de schadenfreude é desporto em Portugal.
Quem não quiser ler o texto todo, por favor, fique com esta frase. É bem fixe e explica basicamente o texto inteiro.
Há uma impressão que se começa a colar nos meus pensamentos e que não me larga. Os processos de criação de inteligibilidades são, provavelmente, uns dos mais belos instrumentos de regulação relacional e de organização de uma sociedade.
Este processo, descrito num repertório permitido nas relações interpessoais, é como um regulamento interno que nos enquadra, mesmo que nem sequer solicite a nossa autorização. Flui, num mar de dezenas de anos de interseções que se poderão assemelhar a redes neuronais. A forma como as experiências sensoriais e psicológicas marcam o nosso córtex é de uma misteriosa complexidade. O mesmo se passa com os povos e as sociedades.
Vejamos o exemplo da invenção patenteada do ovo estrelado instantâneo, Egg Ready, pela Derovo. O que mais abundou nos momentos seguintes por esta bela montra de parafernália cultural foi uma jocosa abordagem ao feito desta empresa.
Num post feito pelo António Nogueira Leite no Facebook, os comentários tinham de tudo mas fundamentalmente uma crítica destrutiva, de desvalorização completa. O comentário que lá deixei clarifica aquilo que eu penso sobre a atividade quase zombie de um grande número de Portugueses.
O português, de facto, só funciona no bota abaixo. Se inovam em x, é porque y é que era bom; se não inovam, é porque o país é uma nulidade e os empresários estão sufocados pelo governo; se registam uma patente, dizem que não convence; se não registam, dizem que Portugal precisa de registar mais patentes.
Terminei escrevendo:
Juro, foi preciso vir viver para o Canadá para nos olhar de fora e perceber que o problema somos - mesmo - nós, sociedade.
Sem esquecer aquilo que realmente penso:
Já não há paciência, desculpem lá.
Uma grande maioria está apenas à espera que tudo resulte mal e que tudo seja desvalorizado, para que depois se confirme a brilhante inteligência que lhes assiste. Mais uma vez, e já aludi a este tema anteriormente, não se trata de inteligência, trata-se de um processo de seleção de informação a montante, de valoração negativa intermédia e de um expectante êxtase de schadenfreude.
Lá no fundo, lá no fundo, o curral está cheio de bosta, cheio de porcos estúpidos, mas lá no canto está o cavalo majestático, a olhar do alto da sua imponência para os pobres porcos. Assim pensarão os geniais e repetitivos zombies.
Ora, porcos e cavalos para o canto da sala. Vou tentar demonstrar qual seria a reação no Canadá a esta invenção canadiana (imaginem) do ovo estrelado instantâneo, Egg Ready, para ser mais fixolas.
Ora bem, eu estaria a dizer isto:
O canadiano, de facto, encontra nas pequenas coisas grandes oportunidades para reforçar a sua perceção positiva do país. Centrando a sua atenção na inovação, enaltecem a capacidade dos seus empresários de serem competitivos e a competência dos seus trabalhadores. É por isto que o primeiro-ministro, um bocadinho tótó, afirma que os canadianos devem estar orgulhosos do país que têm.
Esta simplificação visa o mostrar aquilo que é subterrâneo na análise do país. Não falo dos desafios financeiros e das necessidades do Estado, falo da sociedade. O pessoal está a ficar completamente lavado cerebralmente por esta máquina infernal de deterioração rápida da sanidade coletiva.
A matemática é simples:
- um aspeto positivo: desconfio, porcaria de certeza, não tem hipótese! Se inventassem era um elefante a pilhas! Agora ovos instantâneos? Que mariconços são estes gajos, pah? Ovos? Ovos é prá tua prima!
- um aspeto negativo: já sabia, está tudo podre! Ladrões do caraças! Esta m*rda não vai a lado nenhum! Chuuuuuulos! Só querem é roubar os trabalhadores! Que comam eles os ovos! Maricas do caraças! Façam é bifes, pah!
A soma? Sempre uma subtração.
Nota 1: a palavra schadenfreude vem da língua alemã. Espero não vir a levar com uma pedra por a utilizar...
Nota 2: se forem razoáveis saberão que não estou a falar no princípio da Pollyanna; não, apenas me refiro a sanidade coletiva.
Nota 3: se leram o texto todo e perceberam que tive o cuidado de alertar para a existência de uma tendência portuguesa, então consegui transmitir a minha mensagem; senão, terei que indicar a leitura da nota 4.
Nota 4: se leram o texto todo e perceberam que tive o cuidado de alertar a existência de uma tendência portuguesa, então consegui transmitir a minha mensagem. Sim, é a mesma nota. Só para reforçar.
Nota 5: reparem como faço uma crítica por considerar que devíamos abordar o presente e o futuro com outras lunetas. Giro, não é?
Diferenças entre Portugal e o Canadá: a sociedade revisitada (2)
Num texto anterior descrevi como existem muitas semelhanças entre Portugal e o Canadá ao nível da contestação social e uma diferença significativa ao nível da criação de inteligibilidade do assunto em questão.
O caso particular prende-se com uma disputa entre os sindicatos de professores da província de Ontário e o governo. Os novos desenvolvimentos sobre este caso indicam que o governo poderá multar os sindicatos e os professores se estes desobedecerem ao governo.
If the government’s application to block job action is approved and teachers still defy the order, shuttering elementary schools for the second time this academic year on Friday, the government can take the matter to court. Teachers could be found in contempt of court, or the union could be fined $25,000 and individual teachers $2,000 – on top of being docked regular wages – for each day of illegal strike action, a government official said.
Mais uma vez questiono se aquilo que aconteceria em Portugal seria muito diferente, tanto ao nível dos sindicatos como dos governos. A contestação seria muito semelhante, é certo, mas será que o governo ousaria ameaçar multas? Tenho muitas dúvidas.
Por outro lado, e focando a forma como sociedade avalia este tipo de questões, o que temos é uma análise muito crítica por parte dos professores e sindicatos sobre as medidas do governo e uma perceção razoavelmente expectante da sociedade. Noto, por outro lado, a ausência de referências a pedidos de demissão do executivo. Isto, para mim, é estranho.
Por último, e reforçando um dos aspetos mais importantes neste tipo de casos, é a forma como eles criam sentido do problema. Mais uma vez repito, o país e a província parecem sair razoavelmente incólumes deste conflito, assim como o sistema educativo.
Estou em crer que a amplificação em Portugal, na cacofonia da comunicação social e comentadores, traria um conflito semelhante para resultados mais graves.
Portugal, a sua sociedade, os portugueses e os outros: um comentário
My mother says I’m becoming English. This hurts me, because I know she means I’m becoming cold. I’m no colder than I’ve ever been, but I’m learning to be less demonstrative. . . . I learn my new reserve from people who take a step back when we talk, because I’m standing too close, crowding them. Cultural distances are different, I later learn in a sociology class, but I know it already. I learn restraint from Penny, who looks offended when I shake her by the arm in excitement, as if my gesture had been out of aggression instead of friendliness. I learn it from a girl who pulls away when I hook my arm through hers as we walk down the street— this movement of friendly intimacy is an embarrassment to her. (Hoffman, 1989, p. 146)
Referi num dos meus primeiros textos que acredito que um dos principais problemas de Portugal é a forma como nós, portugueses, nos organizamos enquanto sociedade. Dito assim é interessante e apelativo mas pouco útil. Terá talvez o único mérito, talvez não despiciente, de redireccionar as energias para fora do pensamento de que as finanças públicas equilibradas irão transformar o país. O processo poderá, mas não estou certo que pelas melhores razões se não prepararmos o futuro. Hoje.
Portanto, a sociedade. Não tenho bem a certeza se quero utilizar a palavra “cultura”, pois ela inclui várias normas, signos e conteúdos históricos que não têm uma qualificação tão próxima do nosso dia a dia. É uma preferência. O que aqui importa é a análise da sociedade portuguesa e a compreensão de muitos comportamentos e predisposições importantes para perceber o que poderia ser melhor.
Um post interessante, divulgado no blog Portugal Contemporâneo - Diário de um país visto à distância, vem um pouco ao encontro desta questão das raízes culturais que se traduzem em hábitos e comportamentos de maior condescendência por parte dos Portugueses relativamente ao trabalho e à sua forma de viver.
Não estou totalmente de acordo com algumas das premissas encontradas para justificar determinados comportamentos dos portugueses.
Antes disso, uma nota muito importante para referir que qualquer generalização é perigosa, porque a maior parte das vezes implica uma redução da complexidade de um determinado tema. Julgo que é necessário ser muito prudente nessa generalização quando falamos de sociedades. É tentador mas deveremos apelar aos aspetos particulares para justificar essa abordagem.
É importante assinalar que Portugal se encontra numa transição muito significativa, em que os agora adultos que nasceram a partir dos anos 70 são, na sua maioria, é essa a minha perceção, pessoas com visões e práticas ligeiramente diferentes dos seus antepassados. E não, não estou a dizer que todas as pessoas que nasceram antes são menos inteligentes ou contaminadas por um vírus que as faz pertencerem piores; não, o que quero dizer é que as transformações de Portugal desde a ditadura foram a base onde estes miúdos nasceram, sem a guilhotina moral da ditadura. Felizmente.
Neste sentido, uma análise de Portugal deverá ter em conta esta complexidade. Esquecê-la servirá apenas para contribuir para a confusão e conclusões precipitadas.
Portanto, embora concorde que aspetos significativos da cultura portuguesa e práticas da nossa sociedade constituem factores de letargia, serei levado a concordar se falarmos de uma parte dos portugueses. Como referi, creio que as coisas mudaram e continuam a mudar.
A minha experiência tem-me mostrado como as novas gerações são mais (“mais”!) mundividentes, sensíveis à multiculturalidade, disponíveis para empreender novos desafios e mais abertas ao risco.
A experiência de viver fora de Portugal tem também permitido que compare se somos assim tão diferentes dos jovens adultos de outros países. A minha resposta não é linear mas tentarei ir respondendo a esta questão e outras ao longo da análise do post do Pedro Arroja.
Não é para tomar a sério
…
A primeira coisa que tenho para dizer é que não somos nós que possuímos a nossa própria cultura. É a cultura que nos possui a nós. E como não somos nós que a possuímos, é grande a dificuldade de a modificarmos. O melhor e a primeira coisa que devemos fazer é adaptarmo-nos a ela e, depois, procurar inovar dentro dela.
Não completamente. Considerando que a cultura é extremamente dinâmica e relativamente difusa, a magia é que ela compreende é decorrente de um certo nível de familiaridade entre os seus membros.
Strauss and Quinn (1997) referem que cultures are not ‘bounded, coherent, timeless systems of meaning’ (...). At the same time, however, our experience in our own and other societies keep reminding us that some understandings are widely shared among members of a social group, surprisingly resistant to change in the thinking of individuals, broadly applicable across different contexts of their lives, powerfully motivating sources of their action, and remarkably stable over succeeding generations (p. 3)
Por outro lado, dizer que estas familiaridades ou signos relacionais estáveis de significação da realidade são toda a realidade é a mesma coisa que considerarmos que cada um de nós é uma realidade desfasada de todos os elementos que afetam a nossa complexidade.
Ainda, isto significa que nós criamos a nossa realidade, cultura, sociedade, à medida que ela nos vai devolvendo esse resultado difuso, pouco coerente e palpável, numa capitulação da nossa história.
Por estas razões, concordo que a inovação neste processo é uma forma de alterá-la mas não concordo que nos possamos adaptar-nos. Tal não é possível porque implicaria uma cisão entre elementos que não são possíveis separar.
Os portugueses são trabalhadores muito disciplinados na Dinamarca, na Alemanha ou nos EUA porque o protestantismo espalhou o agnosticismo e o ateísmo por esses países, e neles não valem as convicções pessoais e íntimas. Um trabalhador português que experimente nesses países invocar o trânsito para chegar sistematicamente atrasado ao trabalho, a necessidade de interromper duas vezes o trabalho para tomar café ou fumar cigarros ("é que, sem dois cafés, não me consigo concentrar..."), ou invocar dores de cabeça para faltar ao trabalho ("sinto umas dores na minha cabeça..."), e vai ver o que é que lhe acontece.
Se eu vejo este processo de inovação na sociedade, novelty, como um processo de criação de dialogicalidade, isso significa que não poderei aceitar “os portugueses”. Poderei aceitar “portugueses com uma perspetiva x, y, z, têm dificuldade em assumir uma cultura distinta, como aquela em que os valores são a, b, c”.
Todavia, a minha experiência, num país em que existe uma cultura protestante muito vincada não valida nenhuma diferença substancial sobre a minha experiência de trabalho em Portugal. A tolerância e compreensão justifica muitas e abusivas, por vezes, faltas de vários colegas nos locais em que trabalho.
A pausa para comer alguma coisa, o almoço partilhado com os colegas, a conversa sobre as futilidades do dia-a-dia, o cigarro, estão também aqui presentes. Como em Portugal, quando o ritmo e as exigências do trabalho são mais prementes, as pessoas respondem de acordo.
Julgo que é necessária muita prudência nestas análises demasiado simplistas. Pelos motivos enunciados, 1) os portugueses têm características partilhadas de familiaridade mas existe um nível de diferenciação muito significativo; 2) a multiculturalidade implica um equilíbrio entre culturas, em que as diferenças e a necessidade de participar numa cultura diferente estabelecem um valor positivo incalculável. Uma transposição artificial de uma unicidade, “um português”, para uma cultura diferente, afirmando características não predominantes ou apenas presentes nalguns portugueses, é insuficiente para qualificar os portugueses, para além de eliminar toda a fluidez das relações nos locais de trabalho.
No entanto, confesso que este tipo de raciocínios causais são apelativos. Por um lado demonstra como só poderíamos ser disciplinados por uma imposição externa, respondendo cordialmente ao um nível superior de exigência moral. Se a base de partida é errada, a causalidade é impossível.
Em Portugal nunca é despedido por causa disto e, indo os casos parar a tribunal, essas não são razões válidas de despedimento, porque os próprios juízes chegam atrasados ao trabalho por causa do trânsito, interrompem os julgamentos para irem tomar café ou fumar, e faltam frequentemente ao trabalho por doença. Este é um país católico, um país onde a realidade de Deus se exprime por convicções pessoais e íntimas, e as convicções pessoais e íntimas não são passíveis de fácil comprovação exterior.
Primeiro, ser católico não é necessariamente mau. Aceito, compreendo e acompanho alguns traços da Igreja Católica que são tudo menos razoáveis ou saudáveis. No entanto, e pegando no que referi atrás, simplificar desta forma, utilizando uma relação de causalidade entre espiritualidade e comportamentos ao nível do trabalho, é extremamente redutor.
Mesmo se fosse verdade, a realidade demonstra claramente como a grande maioria das pessoas têm uma visão da espiritualidade e da religião católica como um elemento de fundo, não uma força criadora e preponderante nas suas vidas. Basta pensar nos nossos colegas de trabalho em Portugal e tentar perceber a importância da relação entre a sua conceção da religião Católica e os seus comportamentos e hábitos.
Existe depois a questão da lentidão que o profissional do turismo citado pelo CGP observou em Portugal. O ritmo de vida é extraordinariamente lento, incluindo no trabalho. O emprego é visto por muitos como um meio de socialização, mais do que como um meio de realização pessoal. Os portugueses passam muito tempo no local de trabalho, mas é preciso dizer que uma boa parte dele é a socializar, não a trabalhar. Comparado com os países do norte da Europa, este é um país onde tudo se faz com calma e muitas coisas demoram uma eternidade a fazer.
Concordo que existe uma perspetiva em vários serviços e pessoas que as coisas são para se ir fazendo e que isso é completamente negativo. Não concordo, mais uma vez, com a causalidade fácil entre trabalho e socialização.
Aliás, um trabalho é uma atividade de socialização, em que se recebe dinheiro em compensação pelo tempo e energia que uma pessoa dedica a criar valor.
A minha experiência, utilizando a acima relatada, não permite tirar conclusões lineares sobre a relação entre socialização e trabalho ou sobre a lentidão da vida em Portugal. Errado.
É verdade que os portugueses trabalham muitas horas e que o resultado total da produtividade é baixo, mas gostaria de perceber qual o produtividade por sector. Por outro lado, a riqueza que se cria não é uma variável completamente explicada por um nível determinado de produtividade, para além de não ser um indicador que explique a saúde e harmonia de uma sociedade.
É verdade também que, em muitas terras, os únicos negócios que se vêem abertos são negócios de comes e bebes, padarias, pastelarias, tascas, restaurantes, bares e tabernas. É verdade que os portugueses gostam de comer e perdem muito tempo a comer, mas a mesa é também um meio de socialização, que é aquilo que eles gostam acima de tudo. É claro que comer muito e demorar muito tempo a comer não ajuda nada à produtividade do país. Um dos hábitos que eu herdei de viver vários anos num país protestante é que, ainda hoje, ao almoço, apenas como uma sandes e bebo uma coca-cola. Mas é a única excepção que consigo citar, porque em todos os outros aspectos, a cultura portuguesa já se apropriou de mim outra vez.
Aversão ao risco. Resposta aos incentivos. Sinto que o autor está a descrever uma aldeia transmontana, quando a verdade é que o país é, para o melhor e pior, muito diferente desse contexto. Para além disso, quantos portugueses mais disponíveis para assumirem riscos estarão a criar tabernas e pastelarias?
A questão do almoço em 20 ou 30m, em que se come uma sandes e se bebe alguma coisa, é tudo menos sinal de maior dedicação ao trabalho ou de maior desenvolvimento económico. Considero uma ilusão pensar que esse é um sinal de maior desenvolvimento social. Mais importante para mim é pensar o que se faz com as horas em que se trabalha e, ainda mais importante, a relação que esse facto tem com toda a estrutura organizacional. Isolar factores que estão tão intrincados na produção de um resultado tão global não é a melhor forma de tentar percebermos o subdesenvolvimento económico em Portugal.
A questão do pequeno negócio está relacionada com o personalismo católico, e é uma forma de os portugueses realizarem a sua própria personalidade. Cada um quer ter um negócio, mas um negócio que seja só dele e que ele possa fazer à sua maneira, não um negócio em que ele participa com os outros e que também é dos outros. Os portugueses, regra geral, são, por isso, péssimos sócios. Médias e grandes sociedades em Portugal raramente têm sucesso, excepto quando são detidas maioritariamente por um só homem. As outras desfazem-se por querelas internas entre os sócios.
Concordo em parte. Para além de haver aversão ao risco, existe uma tendência muito pronunciada para considerar que criar riqueza é uma coisa má e que é sempre feita por vias travessas. Basta ouvir os discursos da CGTP ou de outras instituições para percebermos que a mensagem que é transmitida há décadas visa o antagonismo permanente e não uma visão e prática de compromisso. Mas, e mais uma vez, as coisas estão a mudar e isso já se constata.
Finalmente, o CGP parece atribuir grande importância à questão do socialismo. Eu não atribuo. É verdade que nos últimos trinta anos Portugal caiu para o lado do socialismo, e não do liberalismo, mas isso foi porque se integrou no espaço da UE, liderado pela França e pela Alemanha onde prevalece a ideologia do socialismo democrático. A cultura portuguesa não é ideológica e, neste aspecto, o povo português é um "Maria vai com as outras". O dinheiro vinha da Alemanha, e nós deixámo-nos ser como os alemães, ou quisemos ser como os alemães. Se amanhã o dinheiro viesse dos EUA passaríamos a ser liberais como a mesma facilidade.Nós não temos nem nunca tivemos ideólogos socialistas ou de outra natureza. Basta ver o que deixaram escrito Álvaro Cunhal a propósito do comunismo, ou Mário Soares, Sá Carneiro ou Cavaco Silva acerca da social-democracia ou do socialismo democrático para logo se constatar que tudo aquilo é de uma pobreza ideológica indescritível. Não é para tomar a sério.
Afirmar que uma cultura é também ideológica não foge da verdade mas prefiro pensar que aquilo que falta é um número considerável de atores na sociedade que partilhem um rumo mais ou menos identificável e que as pessoas o assumam como seu. Nesse sentido, acho que não existe concordância sobre determinados princípios e uma visão partilhada da realidade e do futuro.
Um povo “Maria vai com as outras" não me parece ser a melhor explicação para perceber as dificuldades que os portugueses têm tido enquanto sociedade para encontrar um caminho que faça sentido. Mais, a relação entre bottom-up e top-down, entre os poderes instituídos, as organizações que são mais audíveis na criação das nossas narrativas e volições coletivas e a sociedade portuguesa, é apenas uma expressão de uma procura de rumo. É nesse sentido, julgo eu, que a sociedade tenta encontrar as suas referências e criar algo que faça sentido.
Mas sim, concordo que a cacofonia, ou aquilo que chamo de esquizofrenia mediática e coletiva, é o principal factor desta deriva.
Estes exercícios são muito interessantes. O problema é que sempre que reduzirmos a complexidade de uma sociedade estaremos a retirar-lhe qualquer capacidade de novelty. Essa capacidade está em cada um de nós mas um discurso simplista apenas servirá para a inibir.
Por outro lado, a compreensão e aceitação das idiossincrasias de um povo e um determinado resultado económico, não são, de todo, um território sem minas.
A multiculturalidade é o facto, a diferenciação é inevitável. Não temos que ser todos iguais ao protótipo; antes, como em qualquer processo de psicoterapia, cada um tem que trabalhar na condição que não pode escapar de si próprio no processo de transformação. Isto significa uma simplicidade complicada de pequenas transformações que consolidam um caminho distinto.
Por último, a nossa diferença, a expansividade emocional dos Portugueses, a proximidade relacional que mantemos, a nossa tendência para resolvermos muitas coisas à mesa, entre muitas outras particularidades, não é má, nem tem que ser boa. É diferente, é cultural, é nossa, é distintiva, é particular. Assumir que esta forma de viver é incompatível com sucesso coletivo ou com uma economia desenvolvida é errado.
É impossível aceitar-te a multiculturalidade e ao mesmo tempo uma inferioridade relativamente a outras culturas. A intersecção do qualitativo e do quantitativo não produz uma equação razoável nesta análise. Este campo de análise produz-se no enquandramento antropológico e sociológico, não numa matriz matemática de super simplificação da realidade.
Diferenças entre Portugal e o Canadá: a sociedade e as suas narrativas
As sociedades vivem organizadas em torno de narrativas e significados que estão imbuídos nas nossas práticas discursivas. A nossa cultura é um processo em eterna construção. A realidade é negociada constantemente.
Serve esta breve introdução para deixar um tópico de reflexão.
Se pensarmos que o BPN e os problemas que daí decorreram foram resultado de atividades criminosas, e se nos focarmos na banca dita saudável, que age dentro da lei, então temos uma análise curiosa.
Nenhum banco português aparece na lista dos 50 bancos mais seguros do Mundo. Tão simples quanto isso. Na mesma lista, vários bancos canadianos aparecem como sendo dos mais seguros. Aliás, tão seguros que:
Moody’s is calling Canada’s bank sector the soundest in the world and a safe haven for investors in a report that also gives the federal government high marks.
Portugal e os bancos portugueses certamente que não têm essa qualificação.
Agora o mais interessante é que entre 2008 e 2010 os bancos canadianos receberam 114 biliões de dólares. Qualquer coisa como 50% do PIB Português. Estão a seguir?
Curioso é saber que este apoio do governo aos bancos teve a designação de apoio de liquidez. Lembram-se da designação europeia? Bailout. Menos simpática, não é? Para além disso, 12 biliões foi o valor que foi destinado no bailout Português para acudir aos bancos. Alguns bancos utilizaram esse dinheiro, outros não.
From October 2008 until June 2010 Canada's banks received over $114 billion from the government - which means from us, the tax payers. But the government didn’t bother telling us that this money came from us. In fact, every man, woman, and child paid over $3,400 to cover the cost. The media never makes this clear either which leads to an ignorant public.
In the U.S. and the rest of the world this is called a bank bailout. In Canada it’s called “liquidity support.” Whatever pleasant word you use, it doesn’t change the fact that the public once again has to pay for private profits.
What is especially scandalous is that during the year-and-a-half bailout period, the banks made an incredible $27 billion in profits and CEO compensation increased 19 per cent.
In fact, Canada gave CIBC, BMO, and Scotiabank more money than their actual worth. That means Canada could have bought the failing banks, changed their backwards policies, and shared the profits with all the taxpayers.
O mais engraçado, se pensarmos nos valores em percentagem do PIB alcançamos um valor superior para os bancos canadianos do que para os bancos portugueses...
Mais uma vez, encontramos diferenças substanciais entre os dois países ao nível da substância? Não parece. Ao nível da narrativa? Completamente.
Ah grande Pessa, e esta hein?
Diferenças entre Portugal e o Canadá: a sociedade revisitada
O meu texto anterior suscitou algumas reações interessantes. Como os leitores não participaram no meu processo de escrita, pelo menos materialmente*, tenho que confessar que talvez tenha sido pouco claro.
Conhecidos vários indicadores internacionais em que o Canadá apresenta um nível de desenvolvimento humano superior ao de Portugal, incluindo a literacia e a educação como factores analisados, julguei interessante questionar uma pergunta feita num espaço de debate na CBC News. Neste canal, a questão que se colocava era se os professores de Ontário tinham direito à greve.
Bem, fiquei estupefacto por constatar que o principal canal de notícias no Canadá estava a colocar uma pergunta tão...estranha. Acho que não há dúvidas em afirmar que se trata de uma questão sem sentido.
Claro que as pessoas têm direito à greve, claro que as pessoas têm direitos e responsabilidades, assim como deveres. Portanto, que raio de pergunta era aquela? Afinal, não seria uma pergunta que faria mais sentido num suposto país menos desenvolvido como Portugal? Por que motivo fez sentido colocar esta questão?
Fui pesquisar. O problema é antigo. Decorre uma discussão há cerca de 1 ano, que versa uma série de conflitos entre o governo da província e os sindicatos dos professores. Curiosamente, muitos alunos e encarregados de educação juntaram-se aos professores, assumindo uma única voz na oposição às medidas do governo.
Por último, a discussão durou 1 ano e não houve acordo. As pessoas concordaram em discordar, revoltaram-se contra o governo liberal (não se pode dizer que um governo é Socialista nestas terras, assim como no USA), os sindicatos estão a preparar novas greves e o governo vai autorizá-las.
Resumindo: não seria de esperar que este tipo de perguntas surgisse num país supostamente menos desenvolvido e não no Canadá?
Por outro lado, note-se como este problema não afeta o país ou a província como um todo, circunscrevendo-se apenas ao conflito em questão. Não há expedientes laterais, análises rocambolescas, previsões cataclísmicas. Há um problema que não tem sido possível resolver.
Nota lateral, os sindicatos dos portos e o governo Português discutem há vários meses questões semelhantes. Os resultados parecem ser francamente mais positivos.
Ou seja, afinal será que este caso permite inferir algo sobre as diferenças entre as sociedades Portuguesa e Canadiana? Provavelmente não, provavelmente não será totalmente claro que as diferenças estejam aí.
Mais, apostaria sem dúvida na capacidade dos canadianos gerirem melhor o problema. Mas, será a minha premissa questionada se pensarmos na estupidez daquela pergunta? Ou será ainda mais interessante que aquela pergunta tenha sido contextualizada numa sequência de conflitos que duram há 1 ano? Fará sentido? O que diz sobre as diferenças ou semelhanças neste caso?
* numa perspetiva construcionista social não seria bem assim ou, se quisermos, numa perspetiva dialógica de construção da realidade.
As diferenças entre Portugal e o Canadá: a sociedade

A pergunta é: should teachers have the right to strike?
Em português será qualquer coisa como: será que os professores têm direito a fazer greve? Esta questão tem sido colocada a propósito de um diferendo entre a província de Ontário e as suas restrições financeiras e os sindicatos de professores e as suas progressões na carreira, autonomia, entre outras questões.
Bem, na perspetiva dos sindicatos e dos professores, não se trata de uma questão de dinheiro mas de perda de autonomia e de direitos. Para comunicarem os seus argumentos, criaram este site intitulado FightBill115.ca.
Este exemplo vem a propósito de uma das diferenças entre Portugal e o Canadá: a forma como a comunicação social e os sindicatos agem no contexto da sociedade e as consequências que daí decorrem.
Quando em Portugal se pensa em cacofonia sem controlo, pensa-se na amplificação da comunicação social. Não há dia nas notícias portuguesas em que não esteja um político ou um comentador omnisciente, capaz de desvendar os mais ínfimos pormenores de um discurso ou a antecipar cenários de A a Z.
Existe também um aparente mas paradoxal benefício desta situação, muita transparência das mensagens que são veiculadas, mas não necessariamente do conteúdo. Isto significa que uma notícia deste tipo em Portugal suporia a existência de uma revolta nacional, com alusão à Constituição da República e ao suposto atraso de Portugal e os incompetentes dos seus governantes. Qualquer coisa assim. Talvez se aludisse a Salazar e à falta de liberdade e às pressões inadmissíveis sobre os professores. Mais, como esta questão resulta de questões de natureza financeira, talvez se afirmasse que o governo era uma cambada de neoliberais ao serviço da sra. Merkel. Enfim, a mesma lenga-lenga do costume.
A verdade no entanto, e com as devidas diferenças históricas, é que as semelhanças são muitas. Vejamos o que o presidente do sindicato dos professores do ensino secundário de Ontário afirma sobre esta famosa lei 115 de congelamento dos salários e perda de autonomia das escolas.
Ken Coran, President of OSSTF/FEESO questioned, “How can the government claim on one hand, that the education workers of Ontario, along with many other workers in this province, must have their wages and benefits cut drastically, yet, on the other hand, is willing to forgive over a billion dollars in mainly business and corporate taxes?”
Hum...onde é que eu já ouvi isto?
Ou então:
"This government would appear to have two major priorities these days; to demonize education sector workers by blaming them for the province’s budget challenges, and to forgive businesses and corporations for not paying over a billion dollars in unpaid taxes. I think it is safe to say that while these may be government priorities, these are not the priorities of most Ontarians,” concluded Coran.
Interessante, não é?
No artigo de jornal referido atrás refere-se que:
Teachers occupy a special rung on the public-sector ladder. Many play heroic roles in motivating and inspiring children to become their best selves, and they deserve to be well compensated.
Hum...Quem é que eu já ouvi a dizer isto?
E ao afinal de 1 ano parece que não chegaram a acordo. 1 ano? 1 ano! O governo da província acabou por afirmar a sua autoridade e decidiu o que achou melhor. Claro, os sindicatos e os professores não ficaram contentes.
Imaginemos o que aconteceria em Portugal se ao final de 1 ano não houvesse um acordo entre o governo e os sindicatos...Eu sei: o governo já teria caído.
Resumindo, as diferenças parecem ser muito poucas e caracterizadas apenas por uma maior tendência de amplificação do caos, tão singular da sociedade portuguesa. Aqui é um problema do governo e dos sindicatos. O país e a província permanecem intactos, o Primeiro-Ministro contínua a dizer que o Canadá é o melhor país do Mundo, o povo continua a adorar a sua terra.
Afinal, os professores têm direito a fazer greve...?
À Fernando Pessa, e esta hein?
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