2.09.2013

A expectativa de schadenfreude é desporto em Portugal


A expectativa de schadenfreude é desporto em Portugal.

Quem não quiser ler o texto todo, por favor, fique com esta frase. É bem fixe e explica basicamente o texto inteiro.

Há uma impressão que se começa a colar nos meus pensamentos e que não me larga. Os processos de criação de inteligibilidades são, provavelmente, uns dos mais belos instrumentos de regulação relacional e de organização de uma sociedade.

Este processo, descrito num repertório permitido nas relações interpessoais, é como um regulamento interno que nos enquadra, mesmo que nem sequer solicite a nossa autorização. Flui, num mar de dezenas de anos de interseções que se poderão assemelhar a redes neuronais. A forma como as experiências sensoriais e psicológicas marcam o nosso córtex é de uma misteriosa complexidade. O mesmo se passa com os povos e as sociedades.

Vejamos o exemplo da invenção patenteada do ovo estrelado instantâneo, Egg Ready, pela Derovo. O que mais abundou nos momentos seguintes por esta bela montra de parafernália cultural foi uma jocosa abordagem ao feito desta empresa.

Num post feito pelo António Nogueira Leite no Facebook, os comentários tinham de tudo mas fundamentalmente uma crítica destrutiva, de desvalorização completa. O comentário que lá deixei clarifica aquilo que eu penso sobre a atividade quase zombie de um grande número de Portugueses.
O português, de facto, só funciona no bota abaixo. Se inovam em x, é porque y é que era bom; se não inovam, é porque o país é uma nulidade e os empresários estão sufocados pelo governo; se registam uma patente, dizem que não convence; se não registam, dizem que Portugal precisa de registar mais patentes.
Terminei escrevendo:
Juro, foi preciso vir viver para o Canadá para nos olhar de fora e perceber que o problema somos - mesmo - nós, sociedade.
Sem esquecer aquilo que realmente penso:
Já não há paciência, desculpem lá.
Uma grande maioria está apenas à espera que tudo resulte mal e que tudo seja desvalorizado, para que depois se confirme a brilhante inteligência que lhes assiste. Mais uma vez, e já aludi a este tema anteriormente, não se trata de inteligência, trata-se de um processo de seleção de informação a montante, de valoração negativa intermédia e de um expectante êxtase de schadenfreude.

Lá no fundo, lá no fundo, o curral está cheio de bosta, cheio de porcos estúpidos, mas lá no canto está o cavalo majestático, a olhar do alto da sua imponência para os pobres porcos. Assim pensarão os geniais e repetitivos zombies.

Ora, porcos e cavalos para o canto da sala. Vou tentar demonstrar qual seria a reação no Canadá a esta invenção canadiana (imaginem) do ovo estrelado instantâneo, Egg Ready, para ser mais fixolas.
Ora bem, eu estaria a dizer isto:
O canadiano, de facto, encontra nas pequenas coisas grandes oportunidades para reforçar a sua perceção positiva do país. Centrando a sua atenção na inovação, enaltecem a capacidade dos seus empresários de serem competitivos e a competência dos seus trabalhadores. É por isto que o primeiro-ministro, um bocadinho tótó, afirma que os canadianos devem estar orgulhosos do país que têm.
Esta simplificação visa o mostrar aquilo que é subterrâneo na análise do país. Não falo dos desafios financeiros e das necessidades do Estado, falo da sociedade. O pessoal está a ficar completamente lavado cerebralmente por esta máquina infernal de deterioração rápida da sanidade coletiva.
A matemática é simples:
  • um aspeto positivo: desconfio, porcaria de certeza, não tem hipótese! Se inventassem era um elefante a pilhas! Agora ovos instantâneos? Que mariconços são estes gajos, pah? Ovos? Ovos é prá tua prima!
  • um aspeto negativo: já sabia, está tudo podre! Ladrões do caraças! Esta m*rda não vai a lado nenhum! Chuuuuuulos! Só querem é roubar os trabalhadores! Que comam eles os ovos! Maricas do caraças! Façam é bifes, pah!
A soma? Sempre uma subtração.

Nota 1: a palavra schadenfreude vem da língua alemã. Espero não vir a levar com uma pedra por a utilizar...

Nota 2: se forem razoáveis saberão que não estou a falar no princípio da Pollyanna; não, apenas me refiro a sanidade coletiva.

Nota 3: se leram o texto todo e perceberam que tive o cuidado de alertar para a existência de uma tendência portuguesa, então consegui transmitir a minha mensagem; senão, terei que indicar a leitura da nota 4.

Nota 4: se leram o texto todo e perceberam que tive o cuidado de alertar a existência de uma tendência portuguesa, então consegui transmitir a minha mensagem. Sim, é a mesma nota. Só para reforçar.

Nota 5: reparem como faço uma crítica por considerar que devíamos abordar o presente e o futuro com outras lunetas. Giro, não é?
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