2.09.2013

Portugal, a sua sociedade, os portugueses e os outros: um comentário


My mother says I’m becoming English. This hurts me, because I know she means I’m becoming cold. I’m no colder than I’ve ever been, but I’m learning to be less demonstrative. . . . I learn my new reserve from people who take a step back when we talk, because I’m standing too close, crowding them. Cultural distances are different, I later learn in a sociology class, but I know it already. I learn restraint from Penny, who looks offended when I shake her by the arm in excitement, as if my gesture had been out of aggression instead of friendliness. I learn it from a girl who pulls away when I hook my arm through hers as we walk down the street— this movement of friendly intimacy is an embarrassment to her. (Hoffman, 1989, p. 146)

Referi num dos meus primeiros textos que acredito que um dos principais problemas de Portugal é a forma como nós, portugueses, nos organizamos enquanto sociedade. Dito assim é interessante e apelativo mas pouco útil. Terá talvez o único mérito, talvez não despiciente, de redireccionar as energias para fora do pensamento de que as finanças públicas equilibradas irão transformar o país. O processo poderá, mas não estou certo que pelas melhores razões se não prepararmos o futuro. Hoje.

Portanto, a sociedade. Não tenho bem a certeza se quero utilizar a palavra “cultura”, pois ela inclui várias normas, signos e conteúdos históricos que não têm uma qualificação tão próxima do nosso dia a dia. É uma preferência. O que aqui importa é a análise da sociedade portuguesa e a compreensão de muitos comportamentos e predisposições importantes para perceber o que poderia ser melhor.

Um post interessante, divulgado no blog Portugal Contemporâneo - Diário de um país visto à distância, vem um pouco ao encontro desta questão das raízes culturais que se traduzem em hábitos e comportamentos de maior condescendência por parte dos Portugueses relativamente ao trabalho e à sua forma de viver.

Não estou totalmente de acordo com algumas das premissas encontradas para justificar determinados comportamentos dos portugueses.

Antes disso, uma nota muito importante para referir que qualquer generalização é perigosa, porque a maior parte das vezes implica uma redução da complexidade de um determinado tema. Julgo que é necessário ser muito prudente nessa generalização quando falamos de sociedades. É tentador mas deveremos apelar aos aspetos particulares para justificar essa abordagem.

É importante assinalar que Portugal se encontra numa transição muito significativa, em que os agora adultos que nasceram a partir dos anos 70 são, na sua maioria, é essa a minha perceção, pessoas com visões e práticas ligeiramente diferentes dos seus antepassados. E não, não estou a dizer que todas as pessoas que nasceram antes são menos inteligentes ou contaminadas por um vírus que as faz pertencerem piores; não, o que quero dizer é que as transformações de Portugal desde a ditadura foram a base onde estes miúdos nasceram, sem a guilhotina moral da ditadura. Felizmente.

Neste sentido, uma análise de Portugal deverá ter em conta esta complexidade. Esquecê-la servirá apenas para contribuir para a confusão e conclusões precipitadas.

Portanto, embora concorde que aspetos significativos da cultura portuguesa e práticas da nossa sociedade constituem factores de letargia, serei levado a concordar se falarmos de uma parte dos portugueses. Como referi, creio que as coisas mudaram e continuam a mudar.

A minha experiência tem-me mostrado como as novas gerações são mais (“mais”!) mundividentes, sensíveis à multiculturalidade, disponíveis para empreender novos desafios e mais abertas ao risco.
A experiência de viver fora de Portugal tem também permitido que compare se somos assim tão diferentes dos jovens adultos de outros países. A minha resposta não é linear mas tentarei ir respondendo a esta questão e outras ao longo da análise do post do Pedro Arroja.

Não é para tomar a sério
A primeira coisa que tenho para dizer é que não somos nós que possuímos a nossa própria cultura. É a cultura que nos possui a nós. E como não somos nós que a possuímos, é grande a dificuldade de a modificarmos. O melhor e a primeira coisa que devemos fazer é adaptarmo-nos a ela e, depois, procurar inovar dentro dela.
Não completamente. Considerando que a cultura é extremamente dinâmica e relativamente difusa, a magia é que ela compreende é decorrente de um certo nível de familiaridade entre os seus membros.

Strauss and Quinn (1997) referem que cultures are not ‘bounded, coherent, timeless systems of meaning’ (...). At the same time, however, our experience in our own and other societies keep reminding us that some understandings are widely shared among members of a social group, surprisingly resistant to change in the thinking of individuals, broadly applicable across different contexts of their lives, powerfully motivating sources of their action, and remarkably stable over succeeding generations (p. 3)

Por outro lado, dizer que estas familiaridades ou signos relacionais estáveis de significação da realidade são toda a realidade é a mesma coisa que considerarmos que cada um de nós é uma realidade desfasada de todos os elementos que afetam a nossa complexidade.

Ainda, isto significa que nós criamos a nossa realidade, cultura, sociedade, à medida que ela nos vai devolvendo esse resultado difuso, pouco coerente e palpável, numa capitulação da nossa história.

Por estas razões, concordo que a inovação neste processo é uma forma de alterá-la mas não concordo que nos possamos adaptar-nos. Tal não é possível porque implicaria uma cisão entre elementos que não são possíveis separar.
Os portugueses são trabalhadores muito disciplinados na Dinamarca, na Alemanha ou nos EUA porque o protestantismo espalhou o agnosticismo e o ateísmo por esses países, e neles não valem as convicções pessoais e íntimas. Um trabalhador português que experimente nesses países invocar o trânsito para chegar sistematicamente atrasado ao trabalho, a necessidade de interromper duas vezes o trabalho para tomar café ou fumar cigarros ("é que, sem dois cafés, não me consigo concentrar..."), ou invocar dores de cabeça para faltar ao trabalho ("sinto umas dores na minha cabeça..."), e vai ver o que é que lhe acontece.
Se eu vejo este processo de inovação na sociedade, novelty, como um processo de criação de dialogicalidade, isso significa que não poderei aceitar “os portugueses”. Poderei aceitar “portugueses com uma perspetiva x, y, z, têm dificuldade em assumir uma cultura distinta, como aquela em que os valores são a, b, c”.

Todavia, a minha experiência, num país em que existe uma cultura protestante muito vincada não valida nenhuma diferença substancial sobre a minha experiência de trabalho em Portugal. A tolerância e compreensão justifica muitas e abusivas, por vezes, faltas de vários colegas nos locais em que trabalho.

A pausa para comer alguma coisa, o almoço partilhado com os colegas, a conversa sobre as futilidades do dia-a-dia, o cigarro, estão também aqui presentes. Como em Portugal, quando o ritmo e as exigências do trabalho são mais prementes, as pessoas respondem de acordo.

Julgo que é necessária muita prudência nestas análises demasiado simplistas. Pelos motivos enunciados, 1) os portugueses têm características partilhadas de familiaridade mas existe um nível de diferenciação muito significativo; 2) a multiculturalidade implica um equilíbrio entre culturas, em que as diferenças e a necessidade de participar numa cultura diferente estabelecem um valor positivo incalculável. Uma transposição artificial de uma unicidade, “um português”, para uma cultura diferente, afirmando características não predominantes ou apenas presentes nalguns portugueses, é insuficiente para qualificar os portugueses, para além de eliminar toda a fluidez das relações nos locais de trabalho.

No entanto, confesso que este tipo de raciocínios causais são apelativos. Por um lado demonstra como só poderíamos ser disciplinados por uma imposição externa, respondendo cordialmente ao um nível superior de exigência moral. Se a base de partida é errada, a causalidade é impossível.
Em Portugal nunca é despedido por causa disto e, indo os casos parar a tribunal, essas não são razões válidas de despedimento, porque os próprios juízes chegam atrasados ao trabalho por causa do trânsito, interrompem os julgamentos para irem tomar café ou fumar, e faltam frequentemente ao trabalho por doença. Este é um país católico, um país onde a realidade de Deus se exprime por convicções pessoais e íntimas, e as convicções pessoais e íntimas não são passíveis de fácil comprovação exterior.
Primeiro, ser católico não é necessariamente mau. Aceito, compreendo e acompanho alguns traços da Igreja Católica que são tudo menos razoáveis ou saudáveis. No entanto, e pegando no que referi atrás, simplificar desta forma, utilizando uma relação de causalidade entre espiritualidade e comportamentos ao nível do trabalho, é extremamente redutor.

Mesmo se fosse verdade, a realidade demonstra claramente como a grande maioria das pessoas têm uma visão da espiritualidade e da religião católica como um elemento de fundo, não uma força criadora e preponderante nas suas vidas. Basta pensar nos nossos colegas de trabalho em Portugal e tentar perceber a importância da relação entre a sua conceção da religião Católica e os seus comportamentos e hábitos.
Existe depois a questão da lentidão que o profissional do turismo citado pelo CGP observou em Portugal. O ritmo de vida é extraordinariamente lento, incluindo no trabalho. O emprego é visto por muitos como um meio de socialização, mais do que como um meio de realização pessoal. Os portugueses passam muito tempo no local de trabalho, mas é preciso dizer que uma boa parte dele é a socializar, não a trabalhar. Comparado com os países do norte da Europa, este é um país onde tudo se faz com calma e muitas coisas demoram uma eternidade a fazer.
Concordo que existe uma perspetiva em vários serviços e pessoas que as coisas são para se ir fazendo e que isso é completamente negativo. Não concordo, mais uma vez, com a causalidade fácil entre trabalho e socialização.

Aliás, um trabalho é uma atividade de socialização, em que se recebe dinheiro em compensação pelo tempo e energia que uma pessoa dedica a criar valor.

A minha experiência, utilizando a acima relatada, não permite tirar conclusões lineares sobre a relação entre socialização e trabalho ou sobre a lentidão da vida em Portugal. Errado.

É verdade que os portugueses trabalham muitas horas e que o resultado total da produtividade é baixo, mas gostaria de perceber qual o produtividade por sector. Por outro lado, a riqueza que se cria não é uma variável completamente explicada por um nível determinado de produtividade, para além de não ser um indicador que explique a saúde e harmonia de uma sociedade.
É verdade também que, em muitas terras, os únicos negócios que se vêem abertos são negócios de comes e bebes, padarias, pastelarias, tascas, restaurantes, bares e tabernas. É verdade que os portugueses gostam de comer e perdem muito tempo a comer, mas a mesa é também um meio de socialização, que é aquilo que eles gostam acima de tudo. É claro que comer muito e demorar muito tempo a comer não ajuda nada à produtividade do país. Um dos hábitos que eu herdei de viver vários anos num país protestante é que, ainda hoje, ao almoço, apenas como uma sandes e bebo uma coca-cola. Mas é a única excepção que consigo citar, porque em todos os outros aspectos, a cultura portuguesa já se apropriou de mim  outra vez.
Aversão ao risco. Resposta aos incentivos. Sinto que o autor está a descrever uma aldeia transmontana, quando a verdade é que o país é, para o melhor e pior, muito diferente desse contexto. Para além disso, quantos portugueses mais disponíveis para assumirem riscos estarão a criar tabernas e pastelarias?

A questão do almoço em 20 ou 30m, em que se come uma sandes e se bebe alguma coisa, é tudo menos sinal de maior dedicação ao trabalho ou de maior desenvolvimento económico. Considero uma ilusão pensar que esse é um sinal de maior desenvolvimento social. Mais importante para mim é pensar o que se faz com as horas em que se trabalha e, ainda mais importante, a relação que esse facto tem com toda a estrutura organizacional. Isolar factores que estão tão intrincados na produção de um resultado tão global não é a melhor forma de tentar percebermos o subdesenvolvimento económico em Portugal.
A questão do pequeno negócio está relacionada com o personalismo católico, e é uma forma de os portugueses realizarem a sua própria personalidade. Cada um quer ter um negócio, mas um negócio que seja só dele e que ele possa fazer à sua maneira, não um negócio em que ele participa com os outros e que também é dos outros. Os portugueses, regra geral, são, por isso, péssimos sócios. Médias e grandes sociedades em Portugal raramente têm sucesso, excepto quando são detidas maioritariamente por um só homem. As outras desfazem-se por querelas internas entre os sócios.
Concordo em parte. Para além de haver aversão ao risco, existe uma tendência muito pronunciada para considerar que criar riqueza é uma coisa má e que é sempre feita por vias travessas. Basta ouvir os discursos da CGTP ou de outras instituições para percebermos que a mensagem que é transmitida há décadas visa o antagonismo permanente e não uma visão e prática de compromisso. Mas, e mais uma vez, as coisas estão a mudar e isso já se constata.
Finalmente, o CGP parece atribuir grande importância à questão do socialismo. Eu não atribuo. É verdade que nos últimos trinta anos Portugal caiu para o lado do socialismo, e não do liberalismo, mas isso foi porque se integrou no espaço da UE, liderado pela França e pela Alemanha onde prevalece a ideologia do socialismo democrático. A cultura portuguesa não é ideológica e, neste aspecto, o povo português é um "Maria vai com as outras". O dinheiro vinha da Alemanha, e nós deixámo-nos ser como os alemães, ou quisemos ser como os alemães. Se amanhã o dinheiro viesse dos EUA passaríamos a ser liberais como a mesma facilidade.
Nós não temos nem nunca tivemos ideólogos socialistas ou de outra natureza. Basta ver o que deixaram escrito Álvaro Cunhal a propósito do comunismo, ou Mário Soares, Sá Carneiro ou Cavaco Silva acerca da social-democracia ou do socialismo democrático para logo se constatar que tudo aquilo é de uma pobreza ideológica indescritível. Não é para tomar a sério.  
Afirmar que uma cultura é também ideológica não foge da verdade mas prefiro pensar que aquilo que falta é um número considerável de atores na sociedade que partilhem um rumo mais ou menos identificável e que as pessoas o assumam como seu. Nesse sentido, acho que não existe concordância sobre determinados princípios e uma visão partilhada da realidade e do futuro.

Um povo “Maria vai com as outras"  não me parece ser a melhor explicação para perceber as dificuldades que os portugueses têm tido enquanto sociedade para encontrar um caminho que faça sentido. Mais, a relação entre bottom-up e top-down, entre os poderes instituídos, as organizações que são mais audíveis na criação das nossas narrativas e volições coletivas e a sociedade portuguesa, é apenas uma expressão de uma procura de rumo. É nesse sentido, julgo eu, que a sociedade tenta encontrar as suas referências e criar algo que faça sentido.

Mas sim, concordo que a cacofonia, ou aquilo que chamo de esquizofrenia mediática e coletiva, é o principal factor desta deriva.

Estes exercícios são muito interessantes. O problema é que sempre que reduzirmos a complexidade de uma sociedade estaremos a retirar-lhe qualquer capacidade de novelty. Essa capacidade está em cada um de nós mas um discurso simplista apenas servirá para a inibir.

Por outro lado, a compreensão e aceitação das idiossincrasias de um povo e um determinado resultado económico, não são, de todo, um território sem minas.

A multiculturalidade é o facto, a diferenciação é inevitável. Não temos que ser todos iguais ao protótipo; antes, como em qualquer processo de psicoterapia, cada um tem que trabalhar na condição que não pode escapar de si próprio no processo de transformação. Isto significa uma simplicidade complicada de pequenas transformações que consolidam um caminho distinto.

Por último, a nossa diferença, a expansividade emocional dos Portugueses, a proximidade relacional que mantemos, a nossa tendência para resolvermos muitas coisas à mesa, entre muitas outras particularidades, não é má, nem tem que ser boa. É diferente, é cultural, é nossa, é distintiva, é particular. Assumir que esta forma de viver é incompatível com sucesso coletivo ou com uma economia desenvolvida é errado.

É impossível aceitar-te a multiculturalidade e ao mesmo tempo uma inferioridade relativamente a outras culturas. A intersecção do qualitativo e do quantitativo não produz uma equação razoável nesta análise. Este campo de análise produz-se no enquandramento antropológico e sociológico, não numa matriz matemática de super simplificação da realidade.
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