7.27.2011

A sensibilidade, a hipocrisia e a coerência

É enternecedor verificar como tantas pessoas se preocupam com aquilo que se está a passar na Somália e, no entanto, não colocam a mesma intensidade na preocupação que têm pelos seus familiares mais próximos ou amigos. Vivem como viveram sempre, agarrados a clichés espampanantes, sedutores da distracção mais singela, criadores dos floreados mais impressionantes. 

É impressionante verificar como tantas pessoas não possuem o mesmo grau de magnanimidade relativamente àqueles que têm o mesmo sangue a correr nas suas veias e chocam-se com qualquer acontecimento trágico. São as mesmas pessoas que nos dias dos funerais estarão sempre presentes, a chorar a morte de alguém, apesar de o amor em vida nunca ter sido uma opção. 

Não há nada como uma grande catástrofe para as pessoas se sensibilizarem com os comportamentos do homem e a função de Deus. Mas esquecem-se sempre do essencial. O meu Deus está em cada uma das pessoas, por isso não julgo necessário apelar a uma ordem superior para tornar a realidade algo inefável. 

Existe, de facto, uma grande fome no Mundo, e não querendo soar moralista mas apenas crítico da moralidade pérfida partilhada por tantos e à qual é fácil ceder, afirmo que a pior é aquela que manipula a realidade até ao último tutano, baralhando corações e confundindo a (ir)racionalidade. 

Que fique claro, sinto uma grande tristeza relativamente ao que se está a passar no corno de África e não apenas na Somália. Mas deixemos-nos de tretas baratas que só servem para alimentar o manto de hipocrisia que adere tão bem a este Mundo cheio de glamour.  

Faça-se aquilo que é devido e por quem tem essa responsabilidade, i.e., governos dos países afectado, governos africanos e de todo o Mundo, organizações internacionais de intervenção rápida, fundações, empresas, etc. Encaminhem-se os recursos necessários para ajudar quem precisa, não só na alimentação e saúde em casos grosseiros como estes,  mas principalmente para colaborar no desenvolvimento das comunidades locais. Como costumam referir, a questão está em reunir os utensílios e conhecimentos para pescar e não oferecê-los. 

Se não houver coerência não existe credibilidade. Podem impressionar-se com as grandes catástrofes mas não verão as micro catástrofes locais e a irrealidade da sua insensibilidade, ficando completamente seduzidos pela sua própria grandiosidade na forma como distribuem um pseudo Amor por tudo o que se mexe. 

O Mundo, perdão, as pessoas são, sem dúvida, um lugar estranho em que se passam coisas muito estranhas.  


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