4.12.2011

A cidadania de Nobre e as elites hipócritas

Toda a gente fala da abertura da política à sociedade, seja lá isso o que for. Eu diria que talvez fosse importante que a política se abrisse à política e que a sociedade se abrisse à sociedade. Ambas parecem estar com grande prisão de ventre.

Talvez todos os hipócritas que gostam da cidadania de uma forma estranha percebam o que a Constituição da República Portuguesa refere se for transcrito em inglês. É que em Português parece estar a ser difícil fazer sentido dos motivos que justificam a crítica.

Poderão criticar o Fernando Nobre pela campanha que realizou na candidatura à Presidência da República. Também não gostei. Muito menos gostei daquela expressão completamente exagerada do "só me tiram daqui com um tiro na cabeça". Foi muito infeliz. Mas porra, o homem é mais do que aquilo! Já fez muito pelo País e merece algum respeito pelo trabalho que desenvolveu ao longo da sua vida. É um orgulho para Portugal ter uma instituição como a AMI. Já lá fiz voluntariado. Sim, sem ganhar um tostão. Terei praticado a "cidadania"? Quem sabe! Será melhor perguntar ao Vitalino Canas.

De facto, todas as críticas e desilusões só demonstram que a escolha faz sentido, nem que não seja para agitar as consciências de muitos. Já todos sabemos que um homem bestial passa a ser uma besta muito facilmente. Talvez porque os homens são facilmente adorados e rapidamente queimados pelos seus próprios seguidores.

Num Portugal estranho, o Primeiro Ministro demissionário é um patriota (nacionalista); o Fernando Nobre um traídor perante aqueles que votaram nele. Afinal, votaram nele ou em outra coisa qualquer que não sabem muito bem o que é? Votaram na utopia da ausência da política? Da quimera do independente que surgiria por cima do sistema político e lhe aspiraria as impurezas?

O Manuel Alegre é o auto proclamado homem da cidadania que acha que o Fernando Nobre tem uma cidadania muito "flexível", esquecendo-se que já foi candidato contra e apoiado pelo PS. Exercício de cidadania.

A identificação com programas e pessoas de vários partidos, em diferentes momentos históricos, parece ser uma condição para justificar uma quase patologia cívica.

Em Portugal há cidadania de primeira e a cidadania de segunda. Todas as mentiras e incompetência dos governos são um exercício político digno e de cidadania de primeira; uma adesão ao projecto do PSD, neste momento e por parte do Fernando Nobre, é um acto de cidadania de segunda. Assim parece.

Há várias coisas que o FEEF e o FMI não trarão e uma delas é uma maior consciência da liberdade e responsabilidade individuais, assim como do sentido de comunidade. Tenho pena mas esse caminho será longo e penoso.

Abram alas para a Constituição Portuguesa.


CHAPTER II

Rights, freedoms and guarantees concerning participation in politics

Article 48
(Participation in public life)

1. Every citizen has the right to take part in political life and the direction of the country’s public affairs, either directly or via freely elected representatives.


Article 51
(Political associations and parties)

1. Freedom of association includes the right to form or take part in political associations and parties and through them to work jointly and democratically towards the formation of the popular will and the organisation of political power.

2. No one may be simultaneously registered as a member of more than one political party, and no one may be deprived of the exercise of any right because he is or ceases to be registered as a member of any legally constituted party.

With love,

The Constitution.
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