3.15.2011

Sócrates e o misticismo

É interessante notar a frequência com que o Primeiro Ministro (reparem no pormenor do 1º..já vão perceber) José Sócrates utiliza as palavras "espírito" e "mente".
Analisemos os significados de cada uma das palavras, retirados do Dicionário Priberam Online.

Espírito (latim spiritus, -us, sopro, ar, alma)

1. Coisa incognoscível que anima o ser vivo.
2. Entidade sobrenatural. = abantesma, alma, espectro, fantasma
3. Ente imaginário.
4. Ser de um mundo invisível.

Mente (latim mens, mentis, inteligência, alma)

1. Parte do ser humano que lhe permite a actividade! reflexiva, cognitiva e afectiva!. = entendimento, espírito, intelecto, pensamento
2. Armazenamento de experiências vividas. = memória, lembrança
3. Disposição de espírito.
4. Aquilo que se pretende fazer. = intenção, intuito, pensamento, propósito, tenção
5. Maneira de compreender ou imaginar o mundo. = imaginação, percepção!
ter em mente: lembrar-se ou ter como intenção.

Facilmente notamos o cheirinho a sobrenatural nestas duas descrições. Repare, Espírito remete para a noção de uma entidade abstracta, imaginária e, portanto, sobrenatural, e a Mente surge com a função do Espírito.

Quando Sócrates diz, por exemplo, "não está no meu espírito..." ou "tenho na minha mente que...", está basicamente a dizer-nos que orgão e função são compreendidos como sendo exactamente a mesma coisa. Daí advém que o floreado místico, repleto de mini expressões que personalizam a sua inefável autoridade, seja apenas uma expressão da identidade messiânica de Sócrates. Mais, o Messias Sócrates traz a sua sabedoria num manto sedutor, bebida pelos seus discípulos como o néctar da verdade, incontestável no seu conteúdo, bitola na sua forma.

Sócrates é o Primeiro Ministro. O primeiro. O Ministro que vai à frente, que abre o caminho, que ilumina os outros discípulos. Que mostra a verdade. Ele dá-lhes a verdade com gotas mágicas, vertidas pelo seu espírito e pela sua mente. Deles se espera que lhe lavem os pés e que lhe respondam afirmativamente à sua magnanimidade altiva. O pusilâmine escondido atrás das suas crenças e que ouse questioná-lo é vergado pelo poder da repreensão moral que o mestre lhe provocaria, o que pressupõe uma dor insuportável de exclusão da torrente da vida.

A sua sucessão é impossível, dado que nenhum Líder místico pode ser substituído. Estas lideranças são imortais, uma vez que se impregnam na carne daqueles que o seguem; atormentam os que têm dúvidas; e anulam aqueles que ousam criticá-lo.

Sócrates assume-se como o caminhante peregrino no reino da sua aura mística. Vê uma luz difusa, que o cega pela iluminação que lhe provoca no espírito. A sua verdade é A verdade; a sua rota é A rota; as suas decisões são As decisões.

Contudo, Sócrates não é realmente um líder. É apenas um homem que usa a sua inteligência e capacidade de manipulação para criar uma realidade paralela, bem expressa pela utilização do seu espírito e mente. Sócrates não poderia substituir Espírito por Alma porque sobre a Alma poderão cair punições graves. O Espírito de Sócrates, no significado aqui apresentado, eleva-se acima da repreensão ou punição.

Sócrates não é um político duro; é um político embrutecido. Sócrates não transmite sinceridade nas suas expressões verbais e corporais. Basta relembrar que todas as suas bengalas linguísticas (e.g., "absolutamente essencial") são utilizadas para segurar as fundações de um discurso tautológico, feito para uma absorção acéfala e não para um embevecido processo analítico. Ele sabe que se deixar de lado o cimento que lhe cola as palavras num discurso mono-color, várias brechas surgirão na mensagem que deseja transmitir.

Sócrates não transmite a confiança que caracteriza um líder; ele tenta colá-la com cuspe nas camadas profundas do nosso cérebro, nos alvéolos da nossa inteligência mais básica.

Sócrates é previsível e daí advém muito do seu poder. É o Mestre que quer orientar, o ancião que apresenta sempre as mesmas lições, na esperança que eles se tornem A verdade.

Sócrates é mais uma pessoa, tão insignificante e importante como tu e eu. Não tem o poder e aura mística que ele julga que possui, nem a capacidade política inata que lhe atribuem. Não, a política não é a arena dele por que ela não lhe permitiria, e se fosse, então a política teria um significado muito diferente daquele que tem.

Sócrates ilumina o seu caminho com a sua própria luz; não se alimenta da luz do seu povo. A sua energia advém da SUA missão, não da missão conferida por um povo que comanda uma nação.

Sócrates diz que o país dele tem mais de 800 anos; o país dele pertence a uma realidade aleatoriamente prevista no seu ideário; Portugal é uma abstracção total, assimilada e criada constantemente por uma narrativa multipolar. Portugal é dos Portugueses, os que estão e os que foram. Portugal nunca será de Sócrates porque ele será sempre mais que um País.

Sócrates é mais um. Nem mais, nem menos. Interessante? Sem dúvida. Mas também já escrevi sobre uma chávena de café.
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