4.04.2010

A Memória Colectiva

A memória colectiva – o passado esquecido e o futuro incompreensível

A vida e o futuro só fazem sentido porque há uma dinâmica totalitária orgânica que nos segura num caminho coerente, apreensível por nós e reconhecido pelos outros. Refiro-me à memória. Sem ela a significação ou valoração são impossíveis.

Pensemos na Demência, Alzheimer ou Agnosia. Perturbações que, com causas e efeitos diferentes, produzem a opacidade da realidade. Simplesmente, a vida deixa de fazer sentido. Indizível, inefável. Nem sequer será irreal. Não será. A consciência derrete-se.

Portanto, o presente e o futuro só farão sentido se houver memória – dos factos pessoais, dos factos colectivos. Quero referir-me aos colectivos, embora seja inevitável que devamos subentender os pessoais.

A política como arte de criação de decisões colectivas necessárias ao desenvolvimento de uma comunidade, é, inevitavelmente, ininteligível numa perspectiva de curto prazo. Apenas uma perspectiva visionária conterá as acções que se viram para o futuro e que fazem sentido no presente.

Quando os cidadãos políticos concorrem a uma eleição deverão ter em conta que poderão, de facto, ser eleitos. Nesse sentido, tudo aquilo que prometerem deverá submeter-se ao contrato da honra e ao teste da memória. Cumpriram? Não cumpriram? Porquê? Que factor impediu a concretização? Que justificação foi emitida? Não é possível que existam promessas que depois não sejam cumpridas sem que haja um factor impeditivo inquestionável e uma justificação razoável. Omitindo estas informações perturba-se o respeito, a verdade, a decência da arte de servir a comunidade.

Por outro lado, grande parte de nós está apenas interessada em saber como será o amanhã – o tempo, quem ganha o jogo, o aumento salarial, as férias, as compras, o que irão arranjar na nossa rua, o carro novo, os impostos que vão baixar ou subir. Esquecemos, demasiadas vezes, o passado – o que foi prometido, o que foi votado, os votos responsabilizantes, a decência, o pormenor – e o futuro– o que queremos ser enquanto comunidade daqui a 10 ou 15 anos e como iremos atingi-lo.

É inaceitável que um político não cumpra as premissas do contrato que estabeleceu com a comunidade. Porque não se trata da comunidade DELE ou dos seus amigos. Trata-se da comunidade. Uma palavra que tende a esfumar-se juntamente com o seu significado mas que deverá ser reavivada pela honra, seriedade, frontalidade, frugalidade, e visão dos cidadãos que querem servi-la.

É profundamente corrosivo que os cidadãos (políticos ou não) vivam no mundo opaco da ausência de memória. Esquecem-se dos números, acções, comportamentos, negociações, negócios, honra, respeito, frugalidade e visão de longo prazo. Sem memória e sem visão de longo prazo estaremos condenados a vegetar num presente decrépito e a não lutar colectivamente por um futuro melhor.
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