4.10.2011

A etérea narrativa de Sócrates

No seguimento da abordagem feita aqui, surgiu-me a seguinte questão: será que ele sente culpa? Será que ele sente remorsos? Será que ele sente algum tipo de polifonia interna?

Isto tudo porque não há ponta de saúde mental por onde se pegue quando se analisa a narrativa major: a realidade é aquilo que eu desejo, eu desejo muito, a realidade é a minha narrativa, a realidade sou eu.

Tenho que confessar, não conseguimos ter um Primeiro Ministro que fosse inspirador, mas conseguimos ter um que foi e é destruidor e ao mesmo tempo gerador de análises muito interessantes.

Se fosse apenas pela riqueza das análises que a identidade deste homem sugerem, gostaria que ele ficasse mais tempo. No entanto, o país não é uma clínica ou aula de Psicopatologia.

Começo seriamente a inclinar-me para a possibilidade de haver outra explicação para a esta persistente e aglutinadora forma de ser.

A criação de uma narrativa que engole todas as expressões de diversidade que lhe poderiam fazer frente ou integrá-la, leva a que toda a expressão identitária e, neste caso, pública, seja difícil de romper. Daí que não exista um mínimo de pudor em dizer coisas mutuamente exclusivas com igual convicção: o pendor criativo deste tipo de narrativa reduz toda a contradição no seu caminho e dá-lhe toda a coerência possível.

Sócrates é, de facto, um grande problema para o país. Não que eu tenha alguma animosidade pessoal com o senhor. Provavelmente vive atormentado pela possibilidade de rejeição. Provavelmente procura ansiosamente toda a gente que o adore sem condições e repudia toda a gente que o poderá questionar. Sim, porque questionar as suas opiniões será questionar a sua essência e isso custar-lhe-á um esforço de integridade pessoal que essa narrativa não permite.

A narrativa de Sócrates está enclausurada numa grande colmeia de afincados bajuladores. Por algum motivo chamaram-lhe menino de ouro do PS. Não, é um menino mas não de ouro. É um menino frágil na sua polifonia interna, robusto na sua resolução. Lá dentro, é um menino que procura o carinho de outros de forma bastante pérfida: manipulando as posições identitárias face à sua narrativa major.

Como vítima e salvador provoca compreensão e respeito dos acólitos; como político destrói a harmonia de um povo.
Post a Comment