4.19.2011

Algo que não sabe sobre Nobre - Luís Osório

O seguinte texto de Luís Osório é um bom exemplo de que a realidade que nos dão em paletes através da comunicação social é uma mera colecção de artefactos.

"Fernando Nobre jantou em casa de Mário Soares com José Sócrates; e este disse-lhe que metade dos seus ministros tinham votado nele.
Fernando Nobre aceitou ser cabeça de lista do PSD por Lisboa. Passos Coelho, por telefone, três dias antes do anúncio público, fez-lhe o convite e lançou-lhe o desafio de ser presidente da Assembleia da República. Esta era a novidade em relação a todas as conversas anteriores: «O senhor, depois das presidenciais, tem o desafio de contribuir para o país. Estamos a um passo do precipício e Portugal precisa de pessoas independentes. O PSD oferece-lhe o segundo lugar na hierarquia do Estado e não lhe pedirá nada em troca quando lá chegar».

O presidente da AMI, na fronteira entre o Sri Lanka e a Índia, vacilou e pediu para pensar. Passos Coelho concordou, desde que a resposta não se prolongasse para além do passado sábado. E assim foi.

Muito poucos sabiam, mas mesmo assim houve fugas de informação. Dois jornalistas, um do I e outro do Diário de Notícias, telefonaram-me para confirmar a notícia de que Nobre fora convidado para ser cabeça de lista por Lisboa. Sobre a presidência da Assembleia da República nada me perguntaram. Disse-lhes que nada sabia sobre listas.

Para juntar ao processo, proponho algumas notas desapaixonadas de quem, sendo muito amigo de Fernando Nobre - e tendo tido uma participação activa na campanha presidencial - nada teve que ver com este processo de decisão.

Tanto o PSD como o PS lhe fizeram convites e tentaram o seu apoio. Mas há duas diferenças essenciais que fizeram Nobre escutar o líder social-democrata e menosprezar o que lhe foram dizendo do lado socialista: por um lado, o seu convencimento de que o ciclo socialista chegou ao fim e é o responsável por um ambiente irrespirável; por outro lado, o facto de o PS apenas se ter aproximado de si depois dos 14% que obteve nas eleições.

Pedro Passos Coelho, amigo de Artur Pereira (director de campanha de Nobre) e admirador do percurso e da mensagem de cidadania do médico, procurou várias vezes escutar a sua opinião. Ao contrário de muitos, nunca procurou menosprezar ou desvalorizar a sua candidatura, mesmo quando as sondagens lhe davam 3 e 4 por cento.

A política também se faz disto - e Nobre nunca poderia aceitar o convite de um partido que considera esgotado e que só mostrou consideração por si depois dos 600 mil votos conseguidos em Janeiro.

Já é público o jantar de Fernando Nobre com Sócrates em casa de Mário Soares. Aconteceu mesmo, é verdade. Nesse jantar, o primeiro-ministro não lhe fez qualquer convite formal: apenas mostrou surpresa pelo resultado e confessou-lhe que metade dos seus ministros votara nele. Já Soares aconselhou calma e silêncio: não era tempo para gastar palavras que se esfumavam na fogueira mediática.

Apesar destes contactos, Fernando Nobre está magoado com Mário Soares. Acredito que não tenha razão para essa mágoa - mas, neste processo, Nobre nunca escondeu a sua irritação pelas constantes associações da sua candidatura ao desejo de vingança de Soares perante Alegre.

E, quando tentou associar o proveito à fama, solicitando a Soares o seu apoio formal (ou a sua influência para chegar a possíveis financiadores da campanha), o ex-Presidente da República pediu-lhe sempre para esperar.

Quanto ao dinheiro, facilitou de facto contactos - que, no final, garantiram à candidatura uma soma irrisória.

As duas pessoas que mais influência tiveram no avanço de Fernando Nobre - ou, pelo menos, que detonaram uma série de reuniões marcadas pelo fundador da AMI - foram Miguel Sousa Tavares e Rui Moreira. Os dois, amigos próximos, desafiaram Nobre para ser candidato à Presidência da República e disponibilizaram-se totalmente para o apoiar no que fosse preciso. Miguel era visita de casa de Fernando Nobre - e na apresentação da sua candidatura, no Padrão dos Descobrimentos, teve o exclusivo da primeira entrevista para a SIC. Esse é o facto e a origem da candidatura.

Grande parte da animosidade do agora candidato putativo a presidente da Assembleia da República tem a ver com as promessas que lhe foram sendo feitas.

Ao apresentar-se como candidato, vários foram os que apareceram à direita e à esquerda. Que os financiamentos eram simples, que ele não tinha de se preocupar - enfim, o habitual. Mas, quando começou a deixar de ter espaço na comunicação social e as sondagens desceram dos cinco por cento, banqueiros, empresários, gestores, políticos e amigos deixaram de atender os telefones. Nobre ficou sozinho. Deu a casa e tudo o resto como aval: um mau resultado equivaleria ao pagamento de dívidas durante o resto da vida.

Só uma pessoa nunca deixou de lhe atender o telefone. Alguém que, sendo banqueiro, lhe confessou que isso era o mínimo que poderia fazer por alguém com o seu percurso de vida. Sem ele, a campanha não teria ido até ao fim; e, se fosse, o resultado teria sido provavelmente catastrófico. Deixo-lhe o desafio de adivinhar o seu nome.

O que quero dizer com isto? Que estou a tomar partido e a fazer a defesa de Fernando Nobre? Não, em nenhum momento o fiz nesta crónica.

Algumas pessoas terão razões para se sentirem despeitadas ou mesmo abandonadas pelo presidente da AMI? Acho que sim. Julgo que o processo não foi bem gerido e certamente alguma coisa terá de ser feita para explicar a alguns dos que o apoiaram o porquê de ter aceite o convite de Passos Coelho. E acredito que isso vai acontecer.

Da mesma maneira que muito do que acontecer no futuro - como muita da importância ou da irrelevância política de Nobre - será jogado na sua primeira intervenção depois de regressar do Sri Lanka. Terá de ser claro quanto aos seus objectivos, quanto à sua independência, quanto às suas ambições - e, também, quanto à classe política que, na sombra, mostra os dentes e prepara uma vingança fria contra um homem que a colocou em cheque.

Fernando pode ajudar a mudar a história e levar a cidadania a uma representatividade que nunca teve (e isso seria histórico para a nossa democracia) ou matar as ilusões das pessoas durante décadas. Está na sua mão. Mas à sua frente há um mundo de sombras onde a luz se assemelha a um oásis".

Via Jornal Sol
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