11.03.2010

Baralhar e voltar a dar

 

Muitas vezes jogamos um jogo estranho com a vida. Colocamos as cartas nas nossas mãos, ora viradas para baixo, ora viradas para cima. O vento gira-nos as mãos, vira-nos o ADN. Sabemos que alguma coisa está lá desenhada mas não conseguimos perceber os alcance dos traços ou a profundida das cores.

Paramos. Sonhamos. Caminhamos incessantemente. Continuamos a desenhar.

Caminhamos pelas ruas desertas cheias de nós, recolhemos os olhares das esquinas e os sinais de stop da realidade. A prioridade são as nossas angústias, desejos e incongruências. Sob a vulcanidade dos nossos passos jaz a imperiosa necessidade de subir os degraus das esferas: das nossas equações interiores, dos resultados das nossas divisões.

Uma das cartas revela-se. As ruas estremecem. A convulsão activa-se, o olhar brilha. Olha aqui um pouco de mim. Vê lá isto, este material de que eu sou feito, o material de que tu és feito.

Uma das cartas esconde-se. As ruas estremecem. A convulsão activa-se, o olhar cerra-se. Percorro as entranhas da revisão da minha constituição. Há alíneas da minha composição ausentes das cartas que apresento.

Volto a produzir as cartas da minha vida. Reparo que são diferentes mas…iguais. Mudei. Os traços e as cores continuam em composição. Volto a dar. Volto a perder. Volto a tentar. Volto a ser. Volto a ouvir-me. Volto a ver-me. Volto a ver-te.

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