12.22.2008

Vozes

As vozes de quem amamos persistem no tempo. São como tilintar de um sino no eco imenso de uma planície. O som deixa-se de ouvir mas a vibração resiste à infinitude. Permanecem vivas, como fantasmas sem abrigo.

Vivem com abrigo em nós. Volta-mo-nos para a sede que varre o timbre esquecido da sua voz. E arrepia-mo-nos por percebermos que existe terra livre das nossas pegadas em nós. Marcas indeléveis que usurpam-nos a nossa periferia e traz-nos ao conforto da sensação de estarmos juntos e tristes sozinhos, apesar de acompanhados.

Relembramos as vozes que nos cantam. Não a nossa. Essa confunde-se com o nosso queixume. Falo, tal como Vergílio Ferreira, da exasperada visualização de um ser que não sabíamos ter aquela totalidade em nós. De facto, somos a fluidez incessante de um jorrar de acção. Não entendemos aquilo que somos. “Somos” enquanto nos entretemos a viver. Mas não percebemos quem “existe” nos nossos olhos.

O vidro quebra-se. Estilhaçado no chão…Reflecte a luz de um sorriso partido. Estamos condenados à precariedade de nos sentirmos apenas no rio e não na pintura do rio. E fugimos, fugimos para bem longe das vozes que nos habitam; e voltamos para bem perto de nós, junto ao código postal dos nossos pontos cardiais de sorrisos sonoros e de pálpebras humedecidas. Relembramos as matizes dos espectros singelos que lhes perpassavam o olhar. Um olhar sonoro, cheio de azáfama, rugindo por um pedaço do bolo bolorento que continuamos a deixar em nós. Ao largo de nós; ao largo de ti.

Ouço a tua voz. Aqui ela fala para toda a minha audiência. E eu escuto-te. Como se eu fosse uma metáfora bamboleante, à procura de um surrealismo esotérico para te apaparicar. Vives há vários anos longe. Vens quando não me pedes. Vi-te ao passar por aquela rotunda, que jorrava água nos meus olhos enquanto sorrias numa imagem que eu congelei na minha memória. Mas tu prossegues quase nos 70 anos, se hoje estivesses com a tua carne neste Mundo horrivelmente repleto de seres mecânicos, insolentes, controlados por visões não humanos. Tu persistes e beijas-me a fronte quando eu vou dormir. Tu resistirás em mim enquanto eu não esquecer de mim em ti.

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