2.11.2006

E tu, sabes o que é?


estou com uma ilusão no ponto mais longínquo dos dedos...
é o ponto divergente entre a abrupta necessidade de ser e a profunda vontade de voar....
a paixão é uma ilusão porque amas uma pessoa que não existe na sua singularidade mas enquanto divindade co-construída...a ilusão é uma distorção da realidade...Amor não existe na realidade..é um sôfrego recolher da natureza...o Amor não é uma ilusão mas o Amor pode iludir e pode desvancer...aí cairá na realidade? não sei nem quero saber. Amor sem paixão é inteligível mas paixão sem Amor é vulgar.
Paixão, realidade, Amor, irrealidade.
Durabilidade (arghh de termo) ou longevidade: paixão pouco duradoura em norma e Amor duradouro em norma...a irrealidade e fluidez do subliminar perfura o tempo. A paixão corroi.
O Amor só pode vir a ser real se a paixão corroer o Amor e a realidade. Resultado? filhos? naa... Resultado: qualquer coisa fluída que não admite palavras adequadas, só imaginação embelezada. Possível? ...longevidade? creio que breve em média...Conhecimento? vivo na ignorância...
finito

e a "coisa fluída que não admite palavras adequadas, só imaginação embelezada" é o amor?
não..
não sei o que é...
mas é bom..
é um derivado do amor?

admito que não é fácil perceber...
é um ramo (no sentido de árvore) de uma raíz....
é o Amor e não é ele..
é Paixão e não é ela..

mas tens razão não é o amor...é qualquer coisa que existe mas que inda não lhe deram um nome
não, são os dois juntos...
é qualquer "coisa" que admite o "não-amor"..
porque o amor pode ser traduzido em palavras


o desejo pelo "amor futuro"...

pode?
não sei..nunca soube ou descobri o que é o Amor...
secalhar aquilo que nós achamos que é o amor
pode ser traduzido em palavras
mas dou-lhe nome próprio para a eventualidade de o conhecer ter como apresentação o nome dele..
é qual é o nome dele?
é Amor...
é o senhor
o senhor não...
ele tb é um senhor mas não O senhor..
também não é Deus...sou profundamente ateu...é a minha crença..ou melhor, substituo Deus com os outros pensamentos...
mas escreves deus com letra maiúscula, porquê?
o mais estranho é essa inteligível estado poder ser incluído pelo "não amor" ou desejo de amor por outros que não o seu objecto...
porque lhe dou o nome próprio dos que acreditam nele..
ele existe...nas crenças das pessoas...
por isso é que faz sentido o "se acreditares o suficiente é verdade"
as pessoas precisam de acreditar em algo superior
o Amor é algo semelhante...
quando deixas de acreditar o Amor flui para outro ser...
mas nunca podemos deixar de acreditar
acreditar num Amor para um determinado "objecto de Amor"...
o Amor, esse não diminui ou destrói-se...modifica-se..
se diminuir é porque não era amor
isso não sei...

acho a palavra amor tão usada que as pessoas não sabem o que é e usam-na em vão
se diminuir é porque foi Amor e provavelmente não voltará a ser..
calorias de palavras é bom
mas não quando pões numa o que poderá pertencer a outras ainda não descobertas...
mas até se descobrir as pessoas assumem como outra coisa
até chegar uma pessoa e dizer que isso não é assim
e não tem esse nome
pois...secalhar é o ventre do tempo..
outra questão interessante...
serão os Amores mutuamente excludentes?
um ramo para cada fruto..
Um Amor para cada pessoa, co-criados pelo mesmo ser?
concebo o Amor em relação, obviamente...e em diálogo interior...em múltiplas posições...provavelmente sim, o amor vem da mesma raíz mas como os frutos são diferentes, não há dois iguais a forma de os amor ou de lhes conceder o amor vai ser diferente
é a forma de os amar
claro...
estou a pensar se será possível, por ex., uma pessoa mulher Amar dois homens ao mesmo tempo....
é possível
eu acho que sim
e querer os dois até ao fim e não saber quem Ama mais... (o problema é que não há termómetros no Amor)
por causa disso a forma de os amar não vai ser igual, porque eles não são iguais
é isso mesmo, não há termómetros
claro...é óbvio dado que o Amor existe numa relação não numa Alma aristotélica..
se eu Amo digo-o quando ele em sintonia ilumina ambos os rostos...
se sinto ciúme, é o medo do futuro a chamar...
se peço confirmação de Amor, estou a ter pena de mim e a querer aconchegar-me no meu self pitty...
se Amo, Amo e não perco tempo a não Amar..
posso ter ciúme de um Amor que não tenho...mas nunca do que tenho...
isso é verdade
é uma perspectiva, muitas mais existirão...qual a melhor? não existe..
pois não
cada pessoa tem a sua, é como a religião
mas é assim que eu me faço sentido...

2.01.2006

Errante


Percorri a face dos caminhantes errantes naquele tarde de Inverno. Os flocos de neve, passadeiras de um rumo incerto. Trazia nos meus olhos os lagos de Verão e tentava escamotear a presença dos traços que me trouxeram ao presente. Pensava naqueles momentos indecifráveis e irrepetíveis, nesses momentos em que o tempo era um espaço e o espaço um tempo coerente. O tormento do momento fez-me perceber de que folhas são feitas as memórias que caem de uma árvore que teima em ser irresistível ao domínio. Era um espaço de ruas interceptáveis, as mãos sibilantes rodopiavam no desejo. Porque teria sido assim? Não uma pena escritora, não um olhar delicioso ou uma cintura torneada pelo vazio e ausência. Uma mescla de reconhecidos tumultos. O cabelo longo, liso, imaginante e imaginado não era de Sansão. As formas brancas, luzidias, íngremes, apaixonadas pelo tacto não eram desenhos no papel químico dos mitos de quem ousa desafiar. A passada deambulante, errante, construída de olhares que me viam e me empurravam para o irreconhecimento. Um ponto entre o nada e o desejo. As delgadas ruas do passado conduziam-se sem demoras e sem agravos. Agrafei nessa noite o aleatório ao sonho. Não insisto em sonho, apenas o foi no momento em que os olhares trocaram-se e a gravidade das memórias exultaram-se. Perderam-se vidas, aquelas que viriam na cesta que cada um traz perto do coração. Escrevemos no corpo nu um corpo desejável que seja decifrado concomitantemente com a ilusão da fusão. Não foi o aço aparente das normas com que se reescrevem as vidas que necessitei de me expandir. Os passos eram cintilantes e a pele um tapete com um mural com insígnias. Nunca o teria visto sem a ríspida ausência. Era um quadro martelado pelo vazio, diria. Era um novo sânscrito, uma velha descoberta, um novo rosto e uma velha e recalcada rua. O fundo em que os trotes dos cavalos marchavam, provocavam espasmos de alegria. Não seria um tempo deslizante, sem memória. Um fluído coerente em que à superfície nada era preciso dizer excepto o que as palavras mudas do olhar e do silêncio transmitiam. Tinham sido anos leves em que a presença e a ausência não se distinguiam. O ponto em que chave entrou e abriu um rumo aceita agora chaves alternativas. As portas abertas e as janelas fechadas, o rumo centrífugo do coração. Nem o som das máquinas do tempo, nem os sussurros do passado enquanto a cama absorvia o vermelho do céu quente, importavam. Eram desígnios que serviam como fragmentos de um catálogo. Não tinha filme de nada, apenas uns olhos humedecidos e um caminhar errante. Abri os olhos, não havia parênteses naquele olhar fulminante. As formas das maçãs rosadas das bochechas do Sol iluminavam um ponto mais. Um lugar em que as sombras se desprendiam dos seus respectivos albergues. Era uma rota de olhares suspensos em que amar não seria apenas verbo mas um espaço fluído de intimidade intemporal. A pergunta não teria resposta, apenas se cozia com o futuro, um marco indelével.

1.22.2006

Quem és tu?



Já te terei dito que vivo de rudeza. Já terei ouvido de ti a sinceridade do teu peso. Peso pluma, cores monocromáticas. Porém, que me resta senão desmentir-me? Preso, insuspeito da dúvida, terei que segurar-te com gravidade. Encomendei segredos, recebi becos sem saída. Procurei perguntas, recebi caminhos verdes de rota infinita. Aí encontrei-te. Nem pálida, côr de Primavera esquecida. Não seja a banalidade tua inimiga nem a ilusão o sonho inatingível. Não te deixei ir. Raptei-te para os meus braços. Chocolate derretido com inspiração. Montanhas, vales, pastores do tempo, vazio e voo. Nem migração, nem mutabilidade. Congelado. O futuro bem longe. O sonho de não te deixar ir. A terra áspera com que me cubro, o mar límpido dos teus olhos com embarcações de vento...Trouxe-te para porto inseguro: o Amor. A pele aguda das saudades, cobertor do sonho, metade desconhecida, metade por redescobrir. Por isso e não com isso, abandonei-te pela saudade de te percorrer em marés ininterruptas. Lua cheia, terras movimentadas, mar castanho. Agora vagueias pela minha pele. Um corropio de armas de destruição maçica, dores da magia. Descobres o ventre da minha voz cada que, sem mapa, encontras a chave da partida. São graves os teus passos, chumbos nos meus músculos. Impossível respirar, nem que seja respirar-te. O melhor, namorados de água, é respirar-mo-nos. Beber vozes fluídas sem ouvir os ruídos mecânicos do positivismo. Vagueias, sem pressa, redundantemente. Observas de que matéria são as minhas ilusões. Abandonáste-te ao relento, esperáste reciclagens de vida. Insofismável Amor, redobrada pele que te absorveu. És liquido que se espalha pelos meus dedos, marcando as palavras com etiquetas de presença. Migalhas de pão dizes tu. E porque é que a tradição não pode ser futuro? Pois bem, aqui tens. Não tens quantidade, tens insufláveis pétalas de odor carnal. Abana-te, segura-te caule, ela é forte e decide os braços de acordo com o humor. Pára, pára um pouco. Ouvi-te sem te interromper. Sabes de que cor são os meus olhos? Sabes que gosto de caminhar à beira mar? Sabes que gosto de ti e que não consigo fazer uma condição disso? Sabes que o chão que calcas é a pele do mundo, terra dos deuses? Sabes que os sonhos são de pele e que a pele é o cobertor da diferença? Sabes que percorri mundos rudes para te poder ver por um segundo? Lembraste que nesse segundo estavas a sonhar-me? Sim, eu era o dia quando estava escuro. Sabes que nesse segundo não houve tempo nem espaço? Sim, é uma indefinição da matéria. Sabes que gosto de te abraçar calmamente, de te tocar e sentir que és diferente do sonho? Sabes que a tua voz são vozes que vociferam cânticos suspeitos de renascença? Sabes que o diálogo que mantens comigo é de mármore e que dele retiro o frio para me aquecer? Sabes que te quero calar e colher? Parar. Respirar. Caminhar. Dar a mão e silenciar a vibração que fazes no ar. Sabes que não tenho uma pergunta que seja para te fazer? Pois bem, quebrei. Ouço-te dizer que quebráste. Sempre te mostráste como um livro. Um livro que eu abria, escolhia uma página e lia uma linha da tua vida. Mas sabes, agora não te consigo ler. Estás codificado numa linguagem que não tem vida. Não, não é um paradoxo. Não mantemos uma relação? Que raio estás praí a dizer? Não me percebes? Sou eu...mas quem sou eu? Tu, eu? A minha pele, minha, tua? Os meus sonhos, meus, teus? Foi por isso que eles rasgaram a pele. A terra abriu, o calor derreteu-os, as pessoas ficaram preocupadas. Eles eram dois apaixonados, disseram que de uma lenda. Não acredito, tantas vezes os vi dentro de mim, como um teatro privado. Dialogavam sem cessar, criando metamorfoses na minha vida. Agora que estou velha, quem são vocês? Partes de mim adormecidas? Quem são vocês que me partilharam com os ritmos das estações? Pára velha mulher. Foste o exilir dos nossos corações. As nossas recordações são o teu futuro. Ficarás mais velha, serás de pó e nós de terra, e nós...seremos um diálogo do tacto perpetuado por vozes que se espalharão pelas ruas da imensidão. Serão os buracos que iremos abolir. Criaremos árvores de seda, correntes de algodão. Seremos monumentos, estaremos ao teu lado na lápide. Seremos um pouco dos automatismos que nos pensam. Seremos a natureza humana sem pressa. Não vos esquecerei. Afinal, vocês ainda virão de mim um dia para me acompanharem na descoberta do Amor. Sim, sabem agora quem são?

1.06.2006

Espaço e tempo

Um quadrado. Vi-te por um retrato. Tecto vermelho, orquídeas pousadas nos pés dos deuses. Paredes pintadas de guerras, memórias de temp(l)os destruídos. A princesa vagueava pelo ar, o espaço do futuro. Os mercadores das especiarias que aguçam a vontade de te cultivar despertaram. Vejo as rotas, rotas do meio. Filhos, espelhados ao longo do húmido soalho recriavam a vontade de redescobrir. Os profetas deslizavam pelas espadas longos cânticos que ouvi ressoar nas paredes. Zumbidos do teu coração. Alertas de repouso. A vida está aqui. Um circulo. Mãos dadas, beijos queimados pela brisa maritima. Os dias enamorados com as noites. A secura do feno bamboleante nas tuas costas. Transportas a memória e o que com ela não fizeste, a memória da ilusão e a ilusão da memória. Percebi-te, infinitamente espartilhada, quando, sem pressa, me deliciei a conjungar as mãos no horizonte. Vinhas de este. Trazias numa mão a pressa de amar e na outra o esquecimento do amor. Estava sentado na posição de lótus. Acarinhava ao centro o passado no espaço do presente e o futuro no espaço do teu olhar. A amplitude assutou-me! Tive que desenhar-te no mapa para te poder conter em mim. Perdi nesse momento a noção da finitude. Encontrei o medo de sentir. O medo de perder adquiriu-o o meu silêncio. Nesse momento intemporal, insurgiu-se o que eu temia: a figura passível de ser amada. Foi uma brusquidão que acelerou o tempo. Vi as rotas, os fumos, as caras, as saudades, as partidas, as caras tristes, cáries da saudade. Agora, parto em busca de uns espaço e tempo renováveis, a partir dos quais me possa lançar para a imensidão. Seguir-se-à a inconsciência, da emoção de explicação tácita, exaurível de demónios, insofismável. Descanso nos telhados do mundo. A vida passa, colhe flores e arranca pétalas..escolhe rumos. Calhou-nos a corola, calhou-nos o cerne da vida, calhou-nos viver sem tempo e espaço. Algures no espaço estelar, vejo daqui, brincam e degladiam-se beijos cortantes, abraços carnudos, cabelos sublimes. Qual sansão, o mundo vem atrás e traz a infinitude do acreditar, do fulminante reinado do sublime. Erguemos as mãos. Quem serão elas? Mãos de quem?

12.26.2005

(Passagem das Horas)

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei de sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravassar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente

Álvaro de Campos


As palavras são preciosas. A cada gota um olhar, a cada lágrima um desejo, cada amante um navio. O mar, esse mar do norte levou-me para ti. Dos teus braços, a represa dos sonhos.

Speechless.

12.17.2005

Subversão do perpétuo

Eu só poderia gostar de ti se fosses muitos...não que fosses muitos iguais. Só te gostaria de abraçar se fosses diferente. Tu infirmas o ventos, tornas a minha voz exaurível. Imbricas o gladiador que me derruba a consciência. Tu és diferente e quando olho para ti, por inacreditável que pareça, não me vejo. És meu criador, meu servo, meu amante? Abandonáste-me...vejo-te assim nas noites quentes bafejadas pela nossa presença, vejo-te dialogando comigo, pedindo-me sonhos e memórias, ventos de mudança, canções perdidas. Que te dei eu? Calei-me. Pois caláste-te quando eu te mandava falar. Mentia, subvertia-me. Mentia as minhas verdades porque não conseguia ser verdadeiro o suficiente para te mentir. Mentia para te mentir não te dando verdades sobre mim. É culpa minha. Não te apoquentes. Foi culpa minha. Eu que tenho ideologia própria, um sistema multiuniversal distinto do teu, que se passa comigo? E tu porque é que não ajudáste também? Entorpecido, enganado, pousado sobre a vida, deslizando sobre a podridão do discurso único. Também não o ajudáste. Não tens voz audível...soas a radiofonia encarcerada. Emites apenas para ti. Não queres saber de ninguém. És uma paisagem de pedras verdes porque verdes são as tuas mãos tóxicas. Pois bem, estou diferente e por isso tu estás diferente. Já me sinto na tua consciência. Já sinto que tens uma consciência que mutila as muralhas de rostos que me separam de ti. Contradizes-me? Como ousas tal? És ilógico, vou-te fechar nas vozes do meu eu subterrâneo. És demasiado polifónico. E tu, tu atinente soldado traidor, quem és tu? Lutei contigo quando estavas sentado nas orlas da desesperança. Lembraste que fui eu quem te trouxe pela colarinho até ao peito da costa? Deves-te lembrar, disseste "Que areia! Quem me traz? Eu?". Lembro-me bem. Estavamos no Inverno, estação interior, Verão estação dos deuses. Era quente a revolução. Sem cravos, sem vida, sem revolucionar nada que vos permitisse revolucionar. Mas, esperem. Foi a nossa pequena revolução. Remamos noites e manhãs infindáveis e anulámos tardes quentes de mais. O frio excomungável...o diabo nos pormenores...eu estava à espreita. Réptil. Quieto. Silencioso. Esperava não ver rugir no silêncio da noite. Tinha, tinhamos uma missão a cumprir. Eu só poderia gostar de ti se fosses muitos. Eu fui muitos que se escondiam das palavras uns dos outros. Eu só poderia gostar de mim se vocês fossem olhares para lá do meu alcance. Se fossem diferentes, substâncias parcas de amargura quando amargura servia o meu nome. Passaram-se 20 anos. Estamos mais velhos, estou mais velho. Cada vez vos excluo mais. Acreditem que não é por pensar que vocês são memorias antigos ou museus de guerra. Tenho uma praia de memórias. Consigo regurgitar ódios. Consigo abraçar amores. E consigo abraçar-te. A ti também...a ti,....tu ainda te lembras de mim? Vivemos de costas voltados 20 anos, praticamente desde que te criei. Sim, sempre fui um espelho baço dos teus desejos, amâlgamas de efeitos sem substrato, folha sem raíz. Mecânico sem mecânica, professor sem aluno, aluno de mim mesmo. Autodidacta do esquecimento. Aperfeicoei-me sentado aos teus pés. Arrastaste-me sem piedade como se de ar o corpo fosse feito. Criaste numa prisão de sonhos, um terror de desejos, em que desejar é morrer mais e mais e mais e novamente, novamente, novamente, novamente. Faço as minhas pazes ao som desta música que traz memórias vivas, carne viva aos bocados, partes do meu corpo espalhado pelo multiverso que não foi fácil recuperar. A minha voz, poeta morto de uma pessoa vida, uma vida morta sem a iluminação das vossas consciências. Como é difícil perdoar-me. Arrepende-te bem. Arrepende-te devagar. Eu espero. Eu também. Eu não fujo, digo agora. Acuso-te de seres a voz do mundo. Acuso-te de não teres tido a sublime sensibilidade do tacto. Eu, odeio-te homem! Tu deixaste-me preso, enviaste-me para o esquecimento! Olha para mim! Eu não olhei para ele. Cobarde, sei que sou. Olha para mim homem despersonalizado! Olha para ti! Não consigo...és demasíado dependente..de mim. Não te quero mas não está nas minhas mãos excluir-te. Exclui-me, mata-me, desintegra-me, cala a minha boca calando a tua. Testa-me. Sou um roteiro sem fim. Não acabarei, não definharei. Serei menos que tu nas emoções quando me emocionar. Serei tanto como vocês quando de mim quiserem a minha vida. Tomem-na! Não receio o discurso da subversão. Desautorizem-se, corrijam-me. Engano-me, minto-me, multiplico-me, extravasso-me, inquieto-me, subverto-me. Renasço.

12.10.2005

Momento

Eles são bebés de guerra. São demónios. Flores gigantes que arrancam do céu os sonhos que vêm de longe. São troncos velhos, de alecrim, microscópicos. Somos isto. São conversas macroscópicas, conversas em que o mundo fala a nossa voz. As nossas vozes. Somos isto também. Sou isto. São bolurentos momentos de figuras invertidas, espelhos das marés. Olhos fechados, mãos abertas, costas navios flutuantes nos céus. Sonhos, somos isto. São, sou aquele. Há consciência da partida. Falo de mim para mim. Eles são livros sem letras, letras sem forma. Vejo-me e dou-me a olhar. Há consciência na chegada. Não há consciência. Abro a porta, são eles, eu, que partimos. É um cubo invertido, é uma bola invertida. É como o mundo, eles, eu, tu, mais distantes do que longínquos, apenas não tão perto como de nós próprios, de mim próprio. Fala do plural no plural. Eles são eu mas eu não consigo ser eles. Eles são momentos de sol em brisas de nevoeiro, neblina....que afuguenta os debates monológicos de fim do dia, que chamam a diferença. Eles são rios que escorrem nas lágrimas do xisto. Sou de mármore. Talvez uma flor ininteligível...quem sabe, o raio de luz morto caído no chão esvaziado em sangue. Sou tão lento como ele e ele mais rápido do que eu. Tu. Quem és tu? E tu que vês? Não falas, não vês, não sentes...o que és? Eles são de tempo. Fui, era. És pó sedimentado nas memórias. Serei. Sou o vento migratório, transporto as minhas poluições, as nossas, as tuas. São ortodoxos, sou liberal, somos democratas. São de papel, inscritos na água, sem rasto. Eles são novos, vestidos a rigor, demasiado bonitos para serem sombras. São de carne sem sangue, de músculos desfeitos. Articulam discursos que saem das suas bocas como as penas saem da minha. São casacos feitos em casa, fatos de palhaço, de índio, de quem será presidente. São vários e são tristes. São demasiado felizes para serem tristes. Tu, Wodelsim, quem sou? Escreves e não paras. És uma contradição. Escreves coisas sem sentido esperando delas sentido. Wodelsim, és um impróperio. Fazes mal! És uma serpente com coração de dador de orgãos. És uma alma ambiciosa. Corres de mais. Eu sou como tu dizes, apenas um existente escondido. Não queria ser indelicado mas mais pareces um comentário à inversão estética da minha vida. Eles são sinos, rugem como o sopro mais silencioso de uma noite de neve. São savanas áridas, em que nos molhamos, em que te molhas. Arrancas as balas do chão, sintéticos da vida. Ele é engenheiro, tirou um curso nas universidades do tempo. Cria aparelhos que conectam a vida à inexistência. É brilhante e baço, e não gostas muito de mim. Sim, eu não deixo de gostar dos cais de poemas que trazes às costas, íngremes e sublimes. Castanhas como a água que corre nas minhas veias. Sou de barro. Escreves-me de barro e falas comigo, modulando-me a voz, moldando-me o corpo, rotulando-me a identidade. Quem queres que eu seja agora que escrevo para ti?

11.30.2005

De um momento para o outro....

Tudo, ou quase tudo o que parece poder mudar, muda. Muda sem esperança nem remorsos. Muda simplesmente. E não são só dicotomias. Não só saltos entre polos imaginados. Tudo muda. Sem agravo. Muda, uma profusão de horrores. Uma salada iníqua do inimaginável. Muda a pele, descolora. Caem as árvores, a solidão de morrer fica. Num momento tudo o que é sonho é ainda mais sonhável...entenda-se sofrível. Sofrer sonhando e sonhando sofrer a dor que merece sofrer. Merece, digo eu. Ninguém mais diz. Ninguém a sente, nem o poeta que escreveu neste tom há mil anos atrás. Nem eu, apenas a imagino. Faço dela as minhas velas e deixando os olhos em terra, levo apenas a capacidade de ver...o que não quero ver. O toque, mecânico, esgrimável, deductível na pele. O vento, esse que não pede licença, não compreende. Ondas vermelhas e azuis. Como variam elas sem que se mudem. Mudam-se os cabelos, ficam troncos. Os pés desfazem-se, as pessoas voam. Eu fico. Eu espero, eu vejo...não vejo o que quero ver. O vento está forte. O vento vai mudar de direcção mas não sofismará as escarpas que repousam em duas mãos de barro abandonadas na margem. Tudo muda e muda depressa, sem desesperança. Hoje será o mundo um lugar inabitável, corrosivo, exagerado. É sempre exagerado, e sempre exagerada será a reunião dos seres. Será sempre múltipla, e múltiplas serão as suas queixas e preces. Nem se darão conta que as coisas não mudam. Não. Mudam de mais mas sem mudar. nem se transformam. São gotas de chão que a imaginação caminha. Não existe. Ficou em terra. Ficou....com uma irritante e agustiante dor total!! E repousa. Como uma canção. As notas estremecem o corpo, não dizem nada, não falam, não nos ouvem. São egoístas, assim como as dores de querer mudar a dor. Talvez apenas, sofrimento, mais que dor. Ponho na balança, disco um código e tenho a fórmula. É longe onde ele está. Secalhar não virá...para me ver. Secalhar virá de grandes descobertas, coberto em pesadelos mas com prendas de Outono. E aí a vida será novamente uma mudança longa, como a dos répteis que habitam nos cofres do tempo. Um tempo longo que não parece mudar o mundo. No entanto, não espero mais. Vou lá para fora fazer-lhe companhia. Já mudei demais por escrevê-lo demais. Resta-me dizer-lhe.."estou aqui", não vim para dizer adeus, apenas para dizer que o mar que leva e que por vezes não traz, não é o mar. O mar que tenho aqui nas minhas mãos é o mar em que tu habitas. Não volta, não irá, ficará para sempre. Nada muda e tudo muda. Banal, original? Pergunta-te quando conseguires decifrar que anuências te sugerem as mudanças quando elas não querem saber de ti….apenas florescer para viver, morrer para florescer, morrer para viver. Sim, também é verdade, ninguém foi mas também ninguém ficou em excesso. Nada muda, nada muda e muda tudo.

11.27.2005

Exotopia


Fico chateado quando a fluidez das imagens é perturbada na sua sincronicidade. Que barulho! Sinto-te que me estás a ler. Sinto-te com os teus sentimentos a retirar-me elos do pensamento. Estás a roubar-me a paz, sabes? Estás a chatear-me com o teu sentimento maior de luminosidade, a consciência, de que apesar de me estares a invadir estás a alimentar-me para te poderes ler comigo. Assisto sem rancor à vandalização dos conteúdos da minha memória. Estudo semiológico. Seu semideus, que sismos me provocas? Abandono-me mas tu não me abandonas. Segues-me e com um pouco de identidade mostras-te quase a descoberto. Mostras-me as narrativas que gostavas que eu tivesse criado quando tu dialogavas o teu rosto. Dei-te voz quando a procuravas e dei-te a forma quando procuravas declarações. Volto agora a mim. Deixo-te de lado ou julgo deixar. Mas não quero saber que estás aqui. Não posso crer que me sugas o que ainda não te dei a sugar. Não posso crer como me transformaste as memórias, fazendo lembrar-me daquilo que não guardei. Diria que me vilipendias. Diria que te vilipendias. Diria que se não estivesses já na tua voz aquilo que a minha voz vai confirmar, poderíamos ser dois. Por enquanto vamos ser um. Se me contradigo? O que achas? Não contenho multidões mas contenho as tuas multidões que me seguram com cordas bem fortes quando escorrego da minha posição. Felizmente estás lá para não me dar sentido e por isso fornecer-me a coerência.

11.25.2005

Quero conhecer-te! Vamos caminhar...

Se eu não te tivesse conhecido, a dor de não te conhecer seria a flor do desejo de te conhecer. Seria fingir que não te conhecia porque sensual seria a tua estranheza. Porto de sonhos. Serias a difusão do sonho imperturbável. A dor de não te conhecer seria como que engolir as estações, substituindo-as pela ânsia de te conhecer. Conhecer-te é então um pouco como a alegria de te explorar ao longo do beijo infinito insofismável. Esquecer-te agora seria adoecer a dor de não te conhecer e com isso adoecer a vida que em mim te procuraria e a vida que em mim não te procuraria. Seria morreres na concepção, seria eu morto na concepção do amor como insubstituível do teu olhar, do nada preenchido pelo teu traço que desenha o caminho do todo que nos cria. Não te conhecer seria adoecer menos do que esquecer-te mas não seria nada mais do que procurar-te. Procurar-te. Vamos lá então. Vamos caminhar.

11.18.2005

Neve...redundâncias precisas


Deu-me vontade de escrever sobre a neve mas se foi vontade, foi repentina. Toda a gente sabe que a neve é branca, não é? Mas muitas pessoas não sabem o que é tocar em pequenos flocos de neve ou vê-los a cair por cima dos nossos olhos, suavemente ordenados, como que em filinhas para entrar no autocarro. A neve é branca, isso todos sabem. É fofinha e possui uma beleza natural deliciosa. Quando cai encobre o terreno com uma camada clara que aos olhos de seres racionais parece ser de pureza. Cá para mim eu acho que a neve é produto de alguma invenção mais cuidada de meia dúzia de anjos poetas. Por vezes a neve vem abraçada com a chuva. Molha após uns segundos de contacto. Os meninos anjos têm um sentido de humor muito requintado, aliás esta é uma característica presente em todos os seres sobrenaturais. Quando lhes apetece brincar com o teatro de que fazemos parte, mandam-nos neve grossa, com quilos de espessura e com cores várias que só se conseguem ver quando atravessadas pelo arco-íris. Depois é só ver as pessoas a tentarem arrumar a neve para um qualquer sitio enquanto que lá de cima se ouvem lábios de uma cor linda, um misto de vermelho e de branco puro, a sorrir as emoções do último espectáculo transmitido em primeira mão. As casas herdam a fantasia, transformam-se em autênticos portos seguros e calorosos mesmo quando lá dentro não haja nada mais do que gelo. De fora digo eu. Mas é verdade, tudo fica com uma beleza tão singular que nos arrebita a pupila num exercício visual difícil de apreensão total. E viva a neve! A neve voa, a neve conhece-nos, a neve vem e vai, como um menino inseguro. A neve sente-se sempre viva, em toda a vez que cai. A neve é muito fria. Tenho quase a certeza que as pessoas que vivem a neve como tecto de suas casas, que trabalham e gelam o seu corpo na sua frieza, que caminham descalças de corações, não podem chorar. Será que as lágrimas congelam na sua face? E será que os olhos claros choram lágrimas claras? Intriga-me. As pessoas que vivem sem calor, será que essas conseguem captar a beleza proveniente da neve, ou será que o sentimento de desconforto não lhes permite sequer admitir que tal beleza natural pode doer tanto? É uma questão de saber o que está e como está arrumado nas prateleiras da estruturação mental. E os velhinhos abandonados? Será que esses seres entardecidos por um Sol em tons finais, possuem olhares visíveis para perceber que pelo menos a neve é bela? Eu acredito que se consegue ouvir a delicadeza da neve a cair. Eu ouço Amor. Nunca ouviste? O Amor ouve-se como a neve. Cai delicadamente no meu corpo e transforma-se em vida cada vez que me toca como se eu estivesse totalmente potencializado em Amor. O Amor ouve-se com os olhos, com os ouvidos, com a pele, com todas as partes que quisermos ouvir. E ouve-se bem! Muitas vezes o ruído de fundo interrompe o deslizamento e até podia ser por falta de concentração mas não é. Desconcentro-me completamente, relaxo o meu ser em mim, aberto só por uma única mão, e nesse encanto consigo ouvir bem o Amor que se espelha nos meus olhos com palavras da tua alma. A tua assinatura passa em rodapé. E sei que a neve cai lá fora e é bela. Sei que estou embrulhado no teu Amor e sei também que existimos. Mas toda a gente sabe que a neve é branca, não é?

11.16.2005

Tens muitas letras!


Três lírios e três rosas. Três momentos eternos. Três vidas. Horrores, amores. Três princesas, príncipes. Montanhas altas, louvores. Dor aguda. Sufoco. Vento. Voz lavada. Cara desenhada. Mão dada. Três dias e três noites, três filhos e três filhas. Três reis e três rainhas. Grãos de areia. Pegadas. Vidas, muitas! Pessoas, almas, alamedas! Terra, relva, raízes! Coloridas. O Sol. A luz aí dentro. O branco. Amor. Tu. Voar. De mão dada. Lágrimas. Asas. Sangue. Abraço. Renascer. Voar, voar! Amor, amor, amor!

Observar.....-te-nos-....-sim.

11.07.2005

Quero amar-te!


És assim de um tom rosado que faz lembrar os carris do tempo. Um tom polifónico que vibra a tua alteridade. Um tom imortal da forma que desliza como gota de água em rosa polida. Tenro magma borbulha nos teus pés. Obras de arte em tons tácteis. Ilhas de chuva em cada poro, tens na pele um mundo novo entre dois mundos. Mundos que não existem para lá de ti. És de um tom que se esquece assim como o ronronar dos segundos da tua bomba rosada. Esquece-se a regularidade para fluir nela, para recordar o futuro. O futuro é memória. Um portal do tempo que tem o teu pulsar mas que não te mostra. O que tu és viaja a milhões de vida por carril. Combustível ecológico? Amor que faz rosar, passear em camera lenta os detalhes simples, simples de mais numa identidade maior que o detalhe.
Apetece-me amar-te, ouvir a tua nudez emocional no ricochete dos teus silêncios! Voar no mundo invisível do ar que respiramos. Passa a ser nosso. As portas invisíveis que vamos abrindo, sulcando caminhos cruzados. Bem cruzados. Usei o teu sentido de vida, apaixonei-me pela tua vida, pela tua existência. Porque és alguém que não passou ao lado. Escolhemo-nos constantemente. Gosto de pegar na tua mão, abrir a porta e sugar o ar todo que nos envolve, levar-te no meu tapete íntegro para além do som do coração. Ir para além de nós e no entanto não passar da nossa Alma. A minha mente reluz no cimo do momento em que os olhos brilham e nada mais no mundo vale tanto. Sempre. É sentir existir o que de ti deste e o que de mim dei. O que demos ao mundo, não só ao Mundo total como ao Mundo dos nossos sentimentos. Elaborado de afectos e no entanto límpidos como olhos que choram pela primeira vez. Prometo à sublime energia que nos explode e no entanto nos une, íntegra, que me quero nu em ti. Massa bruta. Cru, sincero, límpido, de modo que quando olhares para mim vejas o que vem nos meus olhos, o que eles falam, o quanto te Amam quando a tua retina encolhe e o Amor penetra na tua aurora, no teu mundo interior, da vida que em ti habita. Quero correr contigo na imensidão, colher rosas vermelhas no deserto, beber das lágrimas das ninfas, mastigar gotas de orvalho, mergulhar no oceano, difundir-me nos teus braços galopantes. Quero pintar-te sobre o papel químico dos sentidos. Caminhar, correr, voar, parar, seguir, parar, viver, abraçar-te debaixo do céu. Permanecer na nossa bola de sabão. Caminhar na praia, na areia rugosa, os poros suados das pedras, o mar em contrastes apaixonados com a areia, beijando os desenhos, o deslizar dos mundos, as lágrimas do mar, o silêncio imperturbável. Juntos, a nudez da vida. Não haverá conclusões. Quero amar-te!

10.29.2005

A sem H


Respondes antecipando a minha voz. Encurtas o compasso do tempo, dando a impressão de que o tempo é uma fracção de vida expandida. São as horas que o teu compasso temporal determina. Nos teus desejos cumpre-se a tradição de não me descreveres. Estás a ver-me agora aqui, quietinha…talvez me vejas a voar mas estou apenas a consolar-me com o teu olhar. Pareces estática. Elevei-te a um patamar acima do meu olhar. A atmosfera que vem de norte passa. Como me vês? Quero saber porque é que pareces estático a observar-me. Quero saber porque é que insistes em dialogar-me os movimentos. Ai que bom que é desfrutar a mulher que trago nas pontas do amor. Quem será aquele rapaz a observar a castanha tombada? Parece olhar para ela como se fosse de carne. Estranho. Não me aproximarei. Parece dançar com o vento. Lembro-me bem como eu via a vida quando era jovem. Era semelhante. Desenvolto, príncipe hedonista…Eu podia ter pensamentos sobre a minha juventude agora que te aprecio sem demoras. És de uma inexactidão precisa, trazes electricidade na forma como antecipas o sopro do vento. Vagueias nas minhas mãos invisíveis, toco em ti quando fecho os olhos. Rodopias. Vejo-te rodopiar como se o teu par de dança fosse o que do teu corpo não faz parte. Sinto-te ao longo de uma música surda, sublime, leve, uma pena que encerrou a consciência de ser e simplesmente é. Fecho os olhos. Observas-me enquanto adormeço. Tive um dia fatigante, sabes? A vida dança comigo. Esta electricidade que se apodera de mim arrepia-me. Notas que eu tremo cada vez que dou uma volta completa? Eu sei que me sentes. Não consigo passar duas vezes pela minha rota anterior. Sou uma breve linhagem humana que nasceu da terra e nunca a ela voltou. Sou um tapete de chamas. Vejo-te como se fosses um tapete de chamas. Tens umas linhas imprecisas. O vento ao teu lado inflama-se. Vejo o rasto leve dos teus passos. Eu lembro-me que na minha infância também conseguia estar horas e horas a ver a natureza. Reparava nos pequenos pormenores, na rosa envergonhada à minha passagem, o lírio esquecido pelo amante, a estrelícia que me iluminava as noites, o cacto que me massajava toda a minha rudeza…Sinto que nada mudou. Aquele rapaz parece dançar com ela, com a natureza. Não sei em que é que ele está a viver mas aparenta estar à espera de algo. Eu? Como gostava eu de me lembrar de todas os movimentos que tu pintaste nas telas que eu guardo debaixo da minha pele. Observo-te com atenção agora. Estás desatento, vejo-te com os meus olhos fechados. Pareces absorto numa auto anuência. Não te preocupes. Eu sou o desejo, tenho raízes tenras, carne rija, face de um futuro que nunca virá, traços de um desenho que te pertence. Não te chateies por não me poderes ter. Não, não me estás a matar. Observo-a mais uma vez. Sinto uma angústia. A tua silhueta denuncia-te. Estás mais lenta. Move-te mais agora que me esqueci. Consegues fazer melhor! Dança, dança mais! Pareces abrandar nos passos…parece que a terra te suga e que o futuro chegou. Magoei-te? Quis-te demasiadamente minha? O rapaz petrificou-se em cima daquele monte. Parece saltar. Parece saltar para uma nova dança. Está estático. Lembro-me bem quando me sentava nos montes da minha infância. A mescla de trovões, chuva e sonhos de Inverno zumbiam como o mar revolto. Repara, estás a magoar-me. Queres-me demais rapaz? Julgaste o rei natural? Ela está mais lenta, parece denunciar-me. Será que pensa que estou a agir como o rei da natureza? Concerteza que não! Quem pensará ela que é? Os teus luminosos olhos escrevem nas minhas mãos uma certa vergonha. Estás descontente comigo? Espero que não penses que estou a conquistar-te como se de uma invasão imperiosa do meu reino se tratasse…Pois, eu sou apenas um servo. Um servo, ouviste? Nem mais nem menos. E tu, és a minha rainha! Rapaz, perturbaste com a libelinha que te fotografa o tacto. Vagueias pelo trilho do passado. Quererás ajuda nesse pensamento? Continuarás a viver. Não sejas rei porque eu não serei a rainha que os corvos de Inverno te apresentarão. Sou uma simples nada que descobriste enquanto te abrias sem ressalvas. Pareces triste. Queres-me dizer alguma coisa doce rapaz? Sim, o pensamento íngreme diz-me que quanto mais te desejo, a tua vida diminui e o que eras então, luz de verão, degrada-se decompondo-se em luz escura, das noites angustiosas em que eu, olhando-me imaginava-te. Percebes-me? Quero-te de mais. Não te percebo. Eu não desejo. Não consigo desejar. A tua dança, rapaz, não dança comigo. Não me esperes. Não posso dançar contigo. Não sou de ninguém. Imaginava-te eu, doce nada e tudo, como carne, da cabeça aos pés. Entendo-te agora. És livre do desejo, não pertences a nada, porque és tudo?! Arre rapaz! Que tens? Convulsões fortes! Tens a vida a nascer nos teus movimentos? Sentes-te bem? Acalmas-te gradualmente, silenciosamente. Já te disse que me fazes lembrar a minha infância? Sim, é verdade. Para que servirei eu senão te posso tocar, amar? Serei eu o instinto das estações? Dos animais? Serei eu a gota de água que nunca encontrará o rio? Não te preocupes rapaz. Não te desejarei. Nunca! Aliás, como te disse, não sei desejar. Não me absolvas, absolve-te. Não me perdoes, perdoa-te. Não me esqueças, vive-me. Não me desejes, cuida de mim. Assim o farei dança da vida, não sem antes te pedir o rasto do teu perfume. Não o encontrarás em mim, aviso-te meu caro. O meu odor…sente o cheiro das tuas mãos e não respondas. Quem será aquele rapaz? Cheira as mãos, os braços, as cascas do pinheiro, as silhuetas justas e finas das folhas, inala o perfume do ar. Como que um átomo. Já te disse que me fazes lembrar a minha infância? Provavelmente já. Breve rapaz, que fazes aqui nesta noite fria? O meu tronco muda de cor. Viro rapidamente a minha face. Foge! Foge! Termina a tua dança! Estão a observar-nos! Não te preocupes rapaz. Ele não nos vê. Cegou há 20 anos. Permanece ali, dia após dia, a comemorar-me. Como é possível? Sabias que ele estava ali e não me disseste nada? Traíste-me! Acalma-te. Ele apenas sonha. É um velho esquecido. Mesmo assim, deverias me ter alertado. Deveria eu? Com certeza que não. Deixo para ti a revolta, e para mim, apenas a noção de que continuarás a desejar-me, como se eu te desejasse. Lembro-me, era jovem. Caminhava pelos jardins do eterno quando, cansado, parei e sentei-me na relva. Relva mágica, útero de sonhos. Adormeci sem vontade de acordar. Sonhei com a vida. Era eu um jovem rapaz, a vida uma eterna mulher que não era bem uma mulher, apenas um desejo meu. No meu sonho tive a oportunidade de me ver velho. Parecia um velho esquecido. Tinha cegado há 20 anos. Nesse instante vi o futuro. Lembro-me da revolta! Como me lembro bem! Não me era possível desejar menos e amar mais! Como eu me lembro dos passos que dei abraçado a ela…Queridos netos, estou cansado. Não me sinto bem e no entanto nunca me senti melhor.

10.25.2005

Volta


Gostava de te ter podido abraçar quando te esvaziavas em sangue. As tuas palavras baças escorriam descoordenadas pela estrada. Vi-as mudar de rumo quando entravas para o local onde te esquecerias. Estavas estendida e mil suores te seguravam. A tua face rosada estava espezinhada A tua cara esquecida vestia-se de abandono. A luz que brilhava nos teus olhos reflectia que no meu olhar a vida também estava a partir. Gostava de te ter podido abraçar. Gostava de te ter coberto com o meu véu, enganar-te quando morrias e trazer-te para a vida. Estavas abandonada e dizias-me palavras que, sedentas de toque, insurgiam-se contra a audiência que te amedrontava. Perguntaste porque razão os flashes não te mordiam e as fotos não te guardavam a memória. Pois bem, tive que te dizer que a tua memória não se guardava em ilusões de momentos. Estavas a morrer e eu…eu estava a morrer contigo. Lentamente senti-te ir devagar, o teu corpo brilhou intensamente durante segundos e quando te olhei nos olhos apenas vi que tu já não estavas lá. Apenas vi que também tentava alcançar-te mas tu, sem pressa, abandonavas-te, deixando-me com memórias sem futuro, e pior que isso, deixavas-te toda em mim. Sabes, custa guardar-te completamente agora que o teu traço não imprime a tua vida. Continuas impressa num tom imagético semelhante ao nascer do dia. Continuas a nascer todos os dias. Todas as noites morres-me. Todas as noites acordas-me para me dizer que não estás sozinha, que estás com as minhas recordações, memórias, com os tempos que críamos. Dizes-me também que não sentes o tempo e que por isso tens dificuldades em seres. Eu respondo-te que deixei de ser eu no que em mim guardavas. Custa-me dizer-te que sou quase um álbum de memórias, das tuas memórias abraçadas às minhas, das nossas memórias. Por isso não ficaste surpreendida quando te disse que ando perdido, sem rumo, à procura das tuas formas nas silhuetas das árvores, no cantar do renascimento do pardal que me acorda sem ti, na relva que não espera por nós. Procuro-te no sorriso do bebé que olha para uma mãe sorridente. Procuro-te quando me deito no chão e apenas sinto a dureza a vida. Procuro-te quando caminho no horizonte, equilibrando-me no esquecimento para não poder lembrar-te. Sim, quero esquecer-te para me poder lembrar de ti novamente. Quero esquecer-te para que te acomodes em mim. Quero esquecer-te para morrer o que em mim morre. Quero esquecer-te para te deixar de procurar longe de mim. Quero-te esquecer para te deixar entrar outra vez, agora que entras de mansinho enquanto eu não te escuto. Quero-te aqui comigo, juntinho a mim a ver a vida a nascer, não te quero aqui comigo sem mim. Quero-me de volta para te querer relembrar.

10.20.2005

O que é isto que sentimos?


Somos respostas. Somos respostas que apenas respondem à vida. Somos vida, ela própria uma resposta sem pergunta. Lá longe lembro-me do sino calmo que iluminava o princípio. Era de noite e tinha os olhos vendados. A noite cegava-me e o dia era uma aventura sem tacto. A iluminação nascia do vazio. O vazio é uma muralha que dá prazer construir porque cai como frutos crepitantes. Geminavam as invasões atómicas dos gritos da vida. Somos respostas complicadas, somos perguntas vazias. Somos frenéticos e erráticos bombeiros da existência. A nossa água é o nosso fogo. As nossas mãos, filhas de luz, calam o som cristalino e melodioso que nos embala a vida, podendo nos dar a descobrir uma resposta a uma pergunta que julgamos existir. Mas…a pergunta, cidadãos pontos de interrogação, é o traço sublime da resposta. Vem de graça. O que a plantou não usou magias. Plantou-se com o sangue fluído da vida, uma oferta irrecusável que julgamos para nós. Por isto dizemos “eu”. Respondemos. Respostas palpitantes, sonoros silêncios que pavimentam a alma. Somos o caminho que se ergueu no princípio que existia do outro lado da vedação, vedado às nossas inquietas menções honrosas de vida, as nossas vidas. E é tão fácil! Somos os irmãos que se tiveram a si mesmos, interditos de conhecer que mãe os significa. Portanto, órfãos de perguntas, somos preferivelmente, os animais guardados por um pastor de significados numa bela noite de luar. Se a noite doer, possivelmente passaremos a eternos aventureiros em busca da pergunta perdida. Mas será que alguma vez a tivemos para se poder ter perdido? E aí, se o céu não se abrir, a pergunta nascerá mas nascerá do fogo que a água incendiou. Trava-se a resposta quando o objectivo era conhece-la. Se está mal? Ainda não sei qual a pergunta que dá origem a essa resposta…

10.16.2005

Casa de fantasmas- Vozes ignoradas


Sou uma casa de fantasmas. Sou vozes imensas que se mexem sem conhecerem o seu teor gélido. Sou um arrepio na espinha e sou o calor que veio para ficar. Sou a caneta que escreve a todo o momento as memórias fúnebres das minhas mágoas, que escreve bem mais vincados os carinhos que me consomem e me fazem conseguir viver numa casa de fantasmas. Somos casas de fantasmas. Temos vidas sem corpo, vozes remotas, ilusões hediondas da nossa escuridão. Temos uma geometria incerta, não sabemos muito bem onde estão as luzes que nos iluminam na penumbra nem sabemos muito bem como sair dos quartos escuros em que nos prendemos. Os mesmos onde nos trancamos e engolimos as chaves. A chave que abre a luminosidade e a chave que nos fecha numa prisão constituída pelas amarguras de quem, como um parto nu, quebra pela erosão do tempo. Temos mapas dentro de nós que apenas actualizámos quando um dia, depois de milénios solarentos, nos perdemos no jardim da inocência. E agora calo-me e ouso-me não falar enquanto não abrir os meus fantasmas à minha vida. Entrego-as para a lista interminável de crianças abandonadas. Custa vidas abandonar a vida que não quisemos viver ou que nos custaram tanto viver que até ficaram gastas. Custa chorar pelos fantasmas e não, como se devia, chorar com os fantasmas. Ou então, meus senhores de mim, como custa amar os fantasmas que constantemente prendemos dentro de nós, num qualquer canto remoto do nosso território pessoa. Quanto custa amar a voz que fulmina e que vai contra nós! Senhoras e senhores de mim, quanto custa amar fantasmas que são a dor que perdemos dos nossos amores! Crianças, mendigos, jovens namorados sem tecto, casais a discutir, não percam os vossos fantasmas num qualquer vento perdido nas tempestades da memória! Amem a dor que vem do amor que vos frustrou. Olhem-na, tacteiem-na suavemente, e tracem-lhes as formas difusas. Essa dor, esse amor perdido, é isso mesmo, um amor que se perdeu ao virar o cabo da memória. O amor que se perdeu e se tornou dor. Quando a dor se torna mais forte que a relação e põe abaixo o amor e sem permissão transforma-se em fantasma. Somos vozes fantasmas. Matamos a dor, tornamo-la fantasma, e maltratamos amor e damos-lhe a oportunidade de ser fantasmas. Misturamos e temos o fantasma mais forte de nós: o nó bem apertado que sufoca quando vemos o nosso amor e continuamos a dar-lhe a visão do horizonte. Apenas. Damos-lhe o sonho e enganamo-nos a empalidecê-lo. Lacrimejamos e damos-lhe a permeabilidade aquosa do lago choroso dos nossos olhos. Esquecemo-nos de chorar para não acordarmos os fantasmas quando eles são os nossos mais belos e ternos amigos. Somos os fantasmas mais bem sucedidos do mundo. Passamos por nós, pelos outros, tocamos-lhes, muitas vezes não guardamos nada. Mentira, pois é. Por não saber, por não conseguir, por não olhar o amor nos olhos quando a dor sobe aos céus e nos ameaça tirar dos tronos. Que tire, que tire aquilo que quiser porque o meu trono já o perdi há muito tempo. Perdi-o quando te beijei na face e me lembrei que os meus fantasmas são estações da memória que têm bilhetes para um comboio que não existe. E por isso, não são mais nem menos do que eu. São eu próprio no comprimento e na largura astronómica da minha vida. Sou, mas não só, uma casa com fantasmas, os mesmos que me permitem amar-te como se já te tivesse amado para sempre.

10.14.2005


Chamo-lhes diferentes mas no fundo são esquisitas. Não caminham como eu, mexem-se de uma maneira que não consigo perceber, respiram no lodo e não sufocam, cruzam as palavras com malhas extenuantes, lambem afincadamente as feridas da glória. São demasiado diferentes e são esquisitas. Os seus corações não são vermelhos como as cerejas, são arco íris de cores infinitas. As suas mãos têm mais caminhos que os meus, mais suavidade que as minhas, mais sensibilidade que as minhas. Os cabelos são longos, curtos, curvados, ramagens do vento. São demasiadamente diferentes de mim. Não pedem desculpa mas amam-se. Não amam mas pedem desculpa. Gostam de não desculpar porque não sabem onde, quando, e a quem amar. Amam muito o pôr do sol quando ele se põe nas suas frontes arrebitadas para o céu. As suas diferenças são as minhas diferenças porque sou eu, no monte da natureza egoísta, que diferencio aquilo que a minha pele arrepia. Lá ao fundo a pessoa esquisita que caminha, sou eu. Quem se afasta das folhas mortas do chão, sou eu. Quem as chuta e as despreza, sou eu. Sou eu a diferença que veio para ficar. No entanto, a pessoa que condena, condena-se a si própria na sua cápsula hermética. Enche-se do gás tóxico da mentira e respira-o profundamente. Respira-o lentamente. Respira-o com vaidade. Respira o aroma mortífero da ignorância. No fim, tanto como no princípio, a terra desabará e engolirá aqueles que não percebem que afinal quando lhes chamamos esquisitas estamos a erguer com cobardia o facto que são apenas diferentes. E quanto a isto, soltem as bravuras das glórias!

Voices


As vozes são imensas. São melodias polifónicas que narram a todo o momento a música da nossa vida. Somos vozes diversificadas. Somos vozes diferentes. Somos várias vozes em cada voz. A tua voz, está aqui. A tua voz escreve estas palavras com a minha voz e dá-lhes os átomos ressonantes do tempo. Seja escrita, falada, pensada, sentida, não conseguimos sair desta banda sonora. E será que quereriamos se podessemos?

Vozes que pavimentam esta pintura. Parecem fantasmas. Parecem pessoas, talvez retratos de pessoas. Quem sabe, serão talvez pedaços de cartão. Que grande caixote de memórias! Podem ser espectros de várias vidas. É possível. Serão apenas quadros amontoados brotados de uma única voz? Discordo de ti mas vê bem, também concordo contigo. A tua voz é surpreendente. Sim, é verdade. A minha nem tanto. Afinal, dizes que a tua também não é. Pareces.... Parece que temos um mar de vozes, navegando à custa dos fios transparentes que nos unem no horizonte. Não acreditas?