11.05.2006

Dream...

Os sonhos possuem uma iminente capacidade autoral. As comparações com o real poderão ser formativas mas aquilo que o “eu” faz é mais sublime. Utiliza a coroa e sem alusões demasiadas proclama-me rei. O objecto socializado que eu sou desaparece nos sonhos. Nos sonhos sou “eu”, “eu” e “eu”, daí o facto de os delírios de grandeza serem talvez um sonho entre normalidades pérfidas. A mudança de uma letra e consequente palavra revelam quase bilateralmente que as angústias mais despercebidas se exprimem. A capacidade e a execução profícua da autoria no sonho não padece de reflexões. A perfídia é esquecida. Existe-se. Desenvolve-se. Acorda-se o objecto e o “eu” adormece. Muitas vezes não. Flutuam, dialogam e desse diálogo um três aparece. 1+1 não é suficiente. A tonalidade da evolução de um sonho é um grande pesadelo, uma caixa de maravilhas e de formas sem valor de mercado. Não se transaccionam, não há quem os compre, não se podem verificar. A sua existência é idílica, dúbia e a nossa existência nele inefável. Não tenho dúvidas, a tensão que acompanha o desenvolvimento dos momentos é tão característica da inovação! O sonho é um diálogo entre a consciência reflexiva da realidade “acordada” e as projecções esbatidas do ser nos materiais, nos corpos, nos objectos, tempo, espaço, nos sentimentos e em todos os signos tangíveis, imagináveis e inteligíveis. Sonhar não é pensar porque não consigo provar que existo enquanto sonho. Talvez não exista enquanto sonho. Talvez tenha sido daí que nasci e me renovo, constantemente, mesmo quando não existe diálogo e o pano cai. O espectáculo empobrece, tiro-me do átrio e acordo pronto para importar-me com a vida. O sonho, esse filme passou. Não o vi. Realizei-me.

11.01.2006

Brothers

Devíamos olhar para as nossas faces remotas. Devíamos olhar os nossos amados. Perde-se o fio que liga um corpo adulto a uma história que começou bem cedo, mal acordámos. As faces serenas, de sorrisos intemporais devem ser um estandarte da pressão saudável para não esquecer. Não se trata de esquecer o amor mas de sentar os sentimentos na palpabilidade de uma expressão, em tons de carinho, de camisolas azuis com ornamentos amarelos, vermelhos e verdes. Trata-se do cabelo escuro e o rosto adocicado de quem olha sinceramente. O olhar sorrido menos fingido de todos. O colarinho vermelho já não mora naquele presente. Vive na recordação. Transforma-se numa panóplia de adereços de espaços psicológicos unidos a uma titubeante expressão corporal. Talvez por anos a passarem como raios indeléveis.
Transporto-vos para os vossos rostos actuais e sei que já não são o que rostos que vos criaram. Transformaram-se mas não vos mudaram o nome. Amamos resolutamente uma vida mas em extractos de diferentes aromas. Capitalizando a emoção transmitida de quadros incomensuravelmente distintos em direcção às vossas faces eruptivas, posso compreender-vos melhor à luz do meu amor. Sem medidores estáticos ou variáveis. Descomprometido Amor. Se agora os vossos silêncios de mármore são dolorosos e a dor um passatempo de exclusão, outrora seriam ilusões e receios do mistério do devir. Se não são os mesmos temos um problema, não o das vossas identidades mas vossas identidades em mim. A integração de uma flor com uma árvore pressupõe cronicidade, ordem, desenvolvimento. Vossas têm isso tudo e a inesquecível amnésia da doçura. Multiplicaram-se em árvores sem recordarem as flores. Vejo flores e vejo árvores e harmonizo um campo. O toque no cabelo, as bochechas de seda, os movimentos inconfundíveis e as expressões paradigmáticas são frutos de verão. Frutos colhidos, ventos passados, novos tempos. A distância é maior, a dedicação a própria arte é intensa. Sem tempo para novos retratos de imensidão temerários, surgem novos gestos infirmando a inocência, colaborando com arrojados golpes de mestre. Modificar o presente com o passado esquecido, ou seja, nadar num rio que foi oceano. Do azul das lágrimas ao azul da beleza do céu, sem esquecer os tons do verde da camisola de lã e das ternuras inexplicáveis. Tudo aqui num pedaço de viagem, sem que o vosso interior perceba, por agora. Não se cede no Amor. Cede-se à vida a adopção da evolução, com finos traços gradualmente delgados.

Para ti senhor...

Eu perdoo-te senhor. Não fizeste por mal porque nunca conheceste o seu teor. A cultura havia esquecido a imensidão da moralidade. A ti perdoo-te o perdão. Talvez assim sigas os teus caminhos traçados na leveza dos teus marcos. A ti, tudo. Sem me preocupar com os teus números, épocas ou falhas, sem querer ouvir o banal para compreender o essencial. Sinto-te perfeitamente como especial. Não chores, mel da primavera. Não te inspires no dióxido de carbono, nem em piadas sufocantes. A tua identidade não é fumo, apenas bela. Subtil e unicamente súbita quando te esqueces da complexidade da ilusão. Eu perdoo-te assim como não te perdoo. Não há perdão para o que é impossível de ser alvo de perdão. Por isso, resta-me apenas amar-te sem perdão.

To You!

Which arrow flies forever? The one that had hit its mark. The arrow is my love for you that hit the mark, You!

A felicidade exige valentia

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não
esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela
vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,
incompreensões e períodos de crise. Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no
recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida. Ser feliz é não ter
medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para
ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..." Fernando Pessoa

8.04.2006

O que faço contigo?


Há uma fortaleza dentro de uma caixinha de dor dentro de mim. Ela corrói-me, criando rasgos de uma intrépida viagem pelo infinito e uma silenciosa e abatida estada no chão frio de dois seres que não se tocam. Peles impermeáveis. Os meus desejos morrem com as palavras, as ditas e as que imagino. Dentro de mim, fora de mim. Não sou hermético, talvez semi-permeável. As minhas assas protegem-me de nada. São um surreal tactear do futuro (suspiro…) em que o que me habita neste “viver” indesejável é a voz muda dentro de mim. Estremece, vibra-me. Digo a mim próprio que não percebo. Entre o serpentear de pensamentos que pensam pensamentos dos outros, perco-me em raiva. Porém, é tristeza. O tratado da morte, de corte da fita de inauguração de um novo esquecimento. Se é triste? De que falo? Falo de se rejeitar, de evitar, de repugnância. De dor e de incómodo. Poderia descortinar loucura, tal como numa personagem assassina. De facto, somos habitáveis. Sou muitos e diversificados. Entre todos somos fortes mas há uma metáfora de uma quimera que persiste. Há coisas que não mudam e se mudam é para pior. Detesto pessimismo e cultivo-o só para ti. Alimento-te a erva. Mitigo-o e questiono-me incessantemente: como? Porquê? De facto somos especiais. Fujo de uma posição de mim e de uma audiência interna que toca uma música que me corporiza o ser. Baixo o volume da vida e escuto. Ouvem-me dizer que gosto de silêncio. Quero parar e fugir da imaginação de uma realidade. Perguntas hirtas com respostas de algodão. Não fofinhas e infinitamente…tormentas. Os meus olhos param em ti. Em ti. E em ti também. E quanto a ti, que faço contigo? Ou melhor, que faço comigo?

3.25.2006

muitos, muitos e muitos!

Herman Hesse, no romance “O Lobo das Estepes” cantava a riqueza deslumbrante da idiossincrasia e polivocalidade humana: “O peito, o corpo, é sempre uno, mas as almas que nele residem não são nem duas, nem cinco, mas incontáveis, o homem é um bulbo formado por cem folhas, um tecido urdido com muitos fios”.

3.22.2006

Xiuuuuu.....eu? Danças comigo?


Tenho um dilema. Sim, ainda para vós. Quanto mais narrativa, mais me descubro e mais receio tenho em descobrir a imensidão do desconhecido. Quanto mais me leio, mais receio tenho de te descobrir e que isso me faça redescobrir-me, pelas tuas mãos áridas de afectos.
Obrigo-me a escrever-te. A tua voz é uma crosta no tempo, parado, de um pensamento alojado no quadro para o qual o caixilho é vento. Sim, és uma voz que magoa, não por ser má mas por não poder ser boa. A finitude que te cerca é rígida. Ecoas dentro de mim, seja isso perto de ti, longe de mim, no meu discurso. Obrigo-me a ler-te e a ouvir-te. Eu, o próprio (quem, eu?), sou uma audiência dos teus argumentos. Somos breves e multiplicáveis. Tu, eu, uma audiência que me desfaz e que me ressoa e uma vaga de imaginação que, pelas mãos, me traz a salubridade do contínuo. Não a meta, não o rótulo, não a chegada, não o teu olhar. Pois bem, agora estou cansado. A tua estória chegou a um dos fins desta metanarrativa do desgosto. Será que há espaço para uma voz que seja tua mas que seja diferente de ti? Pressuponho a rareza de um belo espaço posicional. Neste momento vocês são observadores dialogantes que retocam a criação. Se fugazmente penso em ti como alguém inextricável do cordão umbilical da terra, então esse não sou eu. A isso tenho direito. De me recusar ser quem tu pensas que eu sou. És vasto e de uma imensidão despida. Um ramo esquecido e uma flor decrépita. Nada mais, nada menos. Volto a vós, senhores. Julgais-me incomodado pelos meus sentimentos? Deverias estar? A sensação de continuidade da descontinuidade só a consigo com um projecto. Raramente te incluo, perfuras a harmonia. Todavia nunca tive tanto de ti. Quanto mais de repulso mais palavras ganhas. Se te amasse talvez me divertisse a contá-las. Mas…és de gelo. Não és bem de gelo. Eu é que não me consigo aquecer. Por isso, escrevo sem interrupções como se esperasse que o pó que embeleza se mantenha. Não sei onde te localizar mas presumo que o mapa que representava não é a representação que de ti emerge agora. Localizo-te numa voz muda, rígida e, inefávelmente, sozinha. És como prisioneiro da minha voz. Suprimo-te, calcando a tua voz, antecipando os teus discursos e, quando me surpreendes pela positiva, abro mão do mar que contenho e afogo a compaixão. Como ousais fazer isso, senhor? Ele nem vos fala! Cala-te tu de mim ausente de mim! Valorizo-te, por isso mando-te calar. Exibes uma voz sonolento, previsível, sem morte. Não tocam sirenes e o prateado da lua é um exército de salvação. Prossigo pelo quadro por onde comecei. Quadro, pensamento revitalizado cada vez que imaginação embirra com os passos indeléveis da criação. Não uma subjectividade. Uma intersubjectividade, não é? Talvez fale para ti num diálogo autoritário, com os pregos que te desenham no vento. A tua presença é anunciada. O melro traz-te no bico, pois lá fora a vida também corre, sem pressas, ao seu ritmo, ao meu ritmo. Sinto uma curiosidade frustrante por aquilo que sentes. Imagino que não sentes aquilo que verdadeiramente sentes. Mas não te dou voz. Se lha darei? Dialogais connosco como se precisasses de um motivo. Mostrem-me a vossa identidade. Fez-se silêncio. Como vês, como é que te podes ver a ver o que vês? Apenas me vês, intermitentemente contigo. Tu em mim, quem sois? Uma pedra no charco, um lírio? Mudei. Respondo-te, obviamente. Não és apenas a dança que joga comigo, és a dança que eu conduzo, ao meu ritmo, ao teu ritmo, sem paragens, apenas com descansos. Não és tu, rocha roída pelo mar que me habitas. Aliás, ninguém me habita. São habitantes de “mim” uma cultura de seres, humanos, não humanos. Tu és, portanto, um ser adoptado, escolhido para uma acordo tácito. A certeza que não sentes isto é inarrável. A enculturação é o que me faz ouvir-te. Rejeitar a tua voz é aceitar a tua presença. Não te agradeço, não te censuro, apenas falo contigo e ouço-te. Porque é que eles não te ouvem? Porque a tua voz fala através da minha sem que com isso precises de um certificado de autoria. Se, objectivamente não falas, é porque ainda não aprendi o teu dialecto. Ah, para me ouvirem falar, eles têm que se calar bem e tu tens que aprender a compreender? Sim, afinal, ainda falas numa cultura imigrante. Exotopicamente, sou emigrante nos teus pensamentos, imigrante na minha enculturação, na minha tentativa de te aceitar como voz semi-independente da minha, em que a linguagem é luz e as palavras, música.

3.01.2006

Não é nada disso



Amar uma pessoa é fácil, explicar é tactear o vento e conhecer-lhe as plumas. Como um guardador de segredos que apenas conhece o segredo de guardar segredos. Como tingir o pôr do sol com as marcas idóneas das pegadas do mar. Como o girassol que patenteia o momento, num longo e amarelado campo de incertezas. Amar uma pessoa é algo relativamente inefável. Se as palavras se embriagavam, a realidade fechava as suas cortinas. Amar é encontrar em cada acordo tácito um nó que une pela desenvoltura com que se desenrola aos pés do futuro. Amar é calar metade do Universo que ama a outra parte. Amar é inexplicavelmente ageográfico. Não é uma ponte, muito menos uma linha. Não é uma barragem, uma foz ou um braço de água. Um oceano que se afunda, talvez…Um sol que se derrete..Passos. Amar é negociar com uma posição que corporizamos, uma imensidão de posições que pela sua exotopia degladia-se com o fim do mundo ao virar da esquina. Amar é uma alma atípica, materialmente indisposta, interiormente co-composta. Situa-se no paralelo da imaginação, junto à extremidade do Amor. Amar não é Amor. É fácil e acessível sentir Amor. Amar é esquecer o óbvio e procurar o corpo, a memória da memória, os fugazes momentos de sublime harmonia entre dois átomos da mesma molécula. Amar é modificar e ser modificado e não recear o Amor. Amar é indefinir uma definição e, nessa alarmante e romântica passagem, co-construir as rotas de um novo mundo. Amar é desprezar o que até aqui foi escrito e reescrever tudo de novo. Amar é rasgar a pele e o coração e, caminhar nu pela nudez.

2.11.2006

E tu, sabes o que é?


estou com uma ilusão no ponto mais longínquo dos dedos...
é o ponto divergente entre a abrupta necessidade de ser e a profunda vontade de voar....
a paixão é uma ilusão porque amas uma pessoa que não existe na sua singularidade mas enquanto divindade co-construída...a ilusão é uma distorção da realidade...Amor não existe na realidade..é um sôfrego recolher da natureza...o Amor não é uma ilusão mas o Amor pode iludir e pode desvancer...aí cairá na realidade? não sei nem quero saber. Amor sem paixão é inteligível mas paixão sem Amor é vulgar.
Paixão, realidade, Amor, irrealidade.
Durabilidade (arghh de termo) ou longevidade: paixão pouco duradoura em norma e Amor duradouro em norma...a irrealidade e fluidez do subliminar perfura o tempo. A paixão corroi.
O Amor só pode vir a ser real se a paixão corroer o Amor e a realidade. Resultado? filhos? naa... Resultado: qualquer coisa fluída que não admite palavras adequadas, só imaginação embelezada. Possível? ...longevidade? creio que breve em média...Conhecimento? vivo na ignorância...
finito

e a "coisa fluída que não admite palavras adequadas, só imaginação embelezada" é o amor?
não..
não sei o que é...
mas é bom..
é um derivado do amor?

admito que não é fácil perceber...
é um ramo (no sentido de árvore) de uma raíz....
é o Amor e não é ele..
é Paixão e não é ela..

mas tens razão não é o amor...é qualquer coisa que existe mas que inda não lhe deram um nome
não, são os dois juntos...
é qualquer "coisa" que admite o "não-amor"..
porque o amor pode ser traduzido em palavras


o desejo pelo "amor futuro"...

pode?
não sei..nunca soube ou descobri o que é o Amor...
secalhar aquilo que nós achamos que é o amor
pode ser traduzido em palavras
mas dou-lhe nome próprio para a eventualidade de o conhecer ter como apresentação o nome dele..
é qual é o nome dele?
é Amor...
é o senhor
o senhor não...
ele tb é um senhor mas não O senhor..
também não é Deus...sou profundamente ateu...é a minha crença..ou melhor, substituo Deus com os outros pensamentos...
mas escreves deus com letra maiúscula, porquê?
o mais estranho é essa inteligível estado poder ser incluído pelo "não amor" ou desejo de amor por outros que não o seu objecto...
porque lhe dou o nome próprio dos que acreditam nele..
ele existe...nas crenças das pessoas...
por isso é que faz sentido o "se acreditares o suficiente é verdade"
as pessoas precisam de acreditar em algo superior
o Amor é algo semelhante...
quando deixas de acreditar o Amor flui para outro ser...
mas nunca podemos deixar de acreditar
acreditar num Amor para um determinado "objecto de Amor"...
o Amor, esse não diminui ou destrói-se...modifica-se..
se diminuir é porque não era amor
isso não sei...

acho a palavra amor tão usada que as pessoas não sabem o que é e usam-na em vão
se diminuir é porque foi Amor e provavelmente não voltará a ser..
calorias de palavras é bom
mas não quando pões numa o que poderá pertencer a outras ainda não descobertas...
mas até se descobrir as pessoas assumem como outra coisa
até chegar uma pessoa e dizer que isso não é assim
e não tem esse nome
pois...secalhar é o ventre do tempo..
outra questão interessante...
serão os Amores mutuamente excludentes?
um ramo para cada fruto..
Um Amor para cada pessoa, co-criados pelo mesmo ser?
concebo o Amor em relação, obviamente...e em diálogo interior...em múltiplas posições...provavelmente sim, o amor vem da mesma raíz mas como os frutos são diferentes, não há dois iguais a forma de os amor ou de lhes conceder o amor vai ser diferente
é a forma de os amar
claro...
estou a pensar se será possível, por ex., uma pessoa mulher Amar dois homens ao mesmo tempo....
é possível
eu acho que sim
e querer os dois até ao fim e não saber quem Ama mais... (o problema é que não há termómetros no Amor)
por causa disso a forma de os amar não vai ser igual, porque eles não são iguais
é isso mesmo, não há termómetros
claro...é óbvio dado que o Amor existe numa relação não numa Alma aristotélica..
se eu Amo digo-o quando ele em sintonia ilumina ambos os rostos...
se sinto ciúme, é o medo do futuro a chamar...
se peço confirmação de Amor, estou a ter pena de mim e a querer aconchegar-me no meu self pitty...
se Amo, Amo e não perco tempo a não Amar..
posso ter ciúme de um Amor que não tenho...mas nunca do que tenho...
isso é verdade
é uma perspectiva, muitas mais existirão...qual a melhor? não existe..
pois não
cada pessoa tem a sua, é como a religião
mas é assim que eu me faço sentido...

2.01.2006

Errante


Percorri a face dos caminhantes errantes naquele tarde de Inverno. Os flocos de neve, passadeiras de um rumo incerto. Trazia nos meus olhos os lagos de Verão e tentava escamotear a presença dos traços que me trouxeram ao presente. Pensava naqueles momentos indecifráveis e irrepetíveis, nesses momentos em que o tempo era um espaço e o espaço um tempo coerente. O tormento do momento fez-me perceber de que folhas são feitas as memórias que caem de uma árvore que teima em ser irresistível ao domínio. Era um espaço de ruas interceptáveis, as mãos sibilantes rodopiavam no desejo. Porque teria sido assim? Não uma pena escritora, não um olhar delicioso ou uma cintura torneada pelo vazio e ausência. Uma mescla de reconhecidos tumultos. O cabelo longo, liso, imaginante e imaginado não era de Sansão. As formas brancas, luzidias, íngremes, apaixonadas pelo tacto não eram desenhos no papel químico dos mitos de quem ousa desafiar. A passada deambulante, errante, construída de olhares que me viam e me empurravam para o irreconhecimento. Um ponto entre o nada e o desejo. As delgadas ruas do passado conduziam-se sem demoras e sem agravos. Agrafei nessa noite o aleatório ao sonho. Não insisto em sonho, apenas o foi no momento em que os olhares trocaram-se e a gravidade das memórias exultaram-se. Perderam-se vidas, aquelas que viriam na cesta que cada um traz perto do coração. Escrevemos no corpo nu um corpo desejável que seja decifrado concomitantemente com a ilusão da fusão. Não foi o aço aparente das normas com que se reescrevem as vidas que necessitei de me expandir. Os passos eram cintilantes e a pele um tapete com um mural com insígnias. Nunca o teria visto sem a ríspida ausência. Era um quadro martelado pelo vazio, diria. Era um novo sânscrito, uma velha descoberta, um novo rosto e uma velha e recalcada rua. O fundo em que os trotes dos cavalos marchavam, provocavam espasmos de alegria. Não seria um tempo deslizante, sem memória. Um fluído coerente em que à superfície nada era preciso dizer excepto o que as palavras mudas do olhar e do silêncio transmitiam. Tinham sido anos leves em que a presença e a ausência não se distinguiam. O ponto em que chave entrou e abriu um rumo aceita agora chaves alternativas. As portas abertas e as janelas fechadas, o rumo centrífugo do coração. Nem o som das máquinas do tempo, nem os sussurros do passado enquanto a cama absorvia o vermelho do céu quente, importavam. Eram desígnios que serviam como fragmentos de um catálogo. Não tinha filme de nada, apenas uns olhos humedecidos e um caminhar errante. Abri os olhos, não havia parênteses naquele olhar fulminante. As formas das maçãs rosadas das bochechas do Sol iluminavam um ponto mais. Um lugar em que as sombras se desprendiam dos seus respectivos albergues. Era uma rota de olhares suspensos em que amar não seria apenas verbo mas um espaço fluído de intimidade intemporal. A pergunta não teria resposta, apenas se cozia com o futuro, um marco indelével.

1.22.2006

Quem és tu?



Já te terei dito que vivo de rudeza. Já terei ouvido de ti a sinceridade do teu peso. Peso pluma, cores monocromáticas. Porém, que me resta senão desmentir-me? Preso, insuspeito da dúvida, terei que segurar-te com gravidade. Encomendei segredos, recebi becos sem saída. Procurei perguntas, recebi caminhos verdes de rota infinita. Aí encontrei-te. Nem pálida, côr de Primavera esquecida. Não seja a banalidade tua inimiga nem a ilusão o sonho inatingível. Não te deixei ir. Raptei-te para os meus braços. Chocolate derretido com inspiração. Montanhas, vales, pastores do tempo, vazio e voo. Nem migração, nem mutabilidade. Congelado. O futuro bem longe. O sonho de não te deixar ir. A terra áspera com que me cubro, o mar límpido dos teus olhos com embarcações de vento...Trouxe-te para porto inseguro: o Amor. A pele aguda das saudades, cobertor do sonho, metade desconhecida, metade por redescobrir. Por isso e não com isso, abandonei-te pela saudade de te percorrer em marés ininterruptas. Lua cheia, terras movimentadas, mar castanho. Agora vagueias pela minha pele. Um corropio de armas de destruição maçica, dores da magia. Descobres o ventre da minha voz cada que, sem mapa, encontras a chave da partida. São graves os teus passos, chumbos nos meus músculos. Impossível respirar, nem que seja respirar-te. O melhor, namorados de água, é respirar-mo-nos. Beber vozes fluídas sem ouvir os ruídos mecânicos do positivismo. Vagueias, sem pressa, redundantemente. Observas de que matéria são as minhas ilusões. Abandonáste-te ao relento, esperáste reciclagens de vida. Insofismável Amor, redobrada pele que te absorveu. És liquido que se espalha pelos meus dedos, marcando as palavras com etiquetas de presença. Migalhas de pão dizes tu. E porque é que a tradição não pode ser futuro? Pois bem, aqui tens. Não tens quantidade, tens insufláveis pétalas de odor carnal. Abana-te, segura-te caule, ela é forte e decide os braços de acordo com o humor. Pára, pára um pouco. Ouvi-te sem te interromper. Sabes de que cor são os meus olhos? Sabes que gosto de caminhar à beira mar? Sabes que gosto de ti e que não consigo fazer uma condição disso? Sabes que o chão que calcas é a pele do mundo, terra dos deuses? Sabes que os sonhos são de pele e que a pele é o cobertor da diferença? Sabes que percorri mundos rudes para te poder ver por um segundo? Lembraste que nesse segundo estavas a sonhar-me? Sim, eu era o dia quando estava escuro. Sabes que nesse segundo não houve tempo nem espaço? Sim, é uma indefinição da matéria. Sabes que gosto de te abraçar calmamente, de te tocar e sentir que és diferente do sonho? Sabes que a tua voz são vozes que vociferam cânticos suspeitos de renascença? Sabes que o diálogo que mantens comigo é de mármore e que dele retiro o frio para me aquecer? Sabes que te quero calar e colher? Parar. Respirar. Caminhar. Dar a mão e silenciar a vibração que fazes no ar. Sabes que não tenho uma pergunta que seja para te fazer? Pois bem, quebrei. Ouço-te dizer que quebráste. Sempre te mostráste como um livro. Um livro que eu abria, escolhia uma página e lia uma linha da tua vida. Mas sabes, agora não te consigo ler. Estás codificado numa linguagem que não tem vida. Não, não é um paradoxo. Não mantemos uma relação? Que raio estás praí a dizer? Não me percebes? Sou eu...mas quem sou eu? Tu, eu? A minha pele, minha, tua? Os meus sonhos, meus, teus? Foi por isso que eles rasgaram a pele. A terra abriu, o calor derreteu-os, as pessoas ficaram preocupadas. Eles eram dois apaixonados, disseram que de uma lenda. Não acredito, tantas vezes os vi dentro de mim, como um teatro privado. Dialogavam sem cessar, criando metamorfoses na minha vida. Agora que estou velha, quem são vocês? Partes de mim adormecidas? Quem são vocês que me partilharam com os ritmos das estações? Pára velha mulher. Foste o exilir dos nossos corações. As nossas recordações são o teu futuro. Ficarás mais velha, serás de pó e nós de terra, e nós...seremos um diálogo do tacto perpetuado por vozes que se espalharão pelas ruas da imensidão. Serão os buracos que iremos abolir. Criaremos árvores de seda, correntes de algodão. Seremos monumentos, estaremos ao teu lado na lápide. Seremos um pouco dos automatismos que nos pensam. Seremos a natureza humana sem pressa. Não vos esquecerei. Afinal, vocês ainda virão de mim um dia para me acompanharem na descoberta do Amor. Sim, sabem agora quem são?

1.06.2006

Espaço e tempo

Um quadrado. Vi-te por um retrato. Tecto vermelho, orquídeas pousadas nos pés dos deuses. Paredes pintadas de guerras, memórias de temp(l)os destruídos. A princesa vagueava pelo ar, o espaço do futuro. Os mercadores das especiarias que aguçam a vontade de te cultivar despertaram. Vejo as rotas, rotas do meio. Filhos, espelhados ao longo do húmido soalho recriavam a vontade de redescobrir. Os profetas deslizavam pelas espadas longos cânticos que ouvi ressoar nas paredes. Zumbidos do teu coração. Alertas de repouso. A vida está aqui. Um circulo. Mãos dadas, beijos queimados pela brisa maritima. Os dias enamorados com as noites. A secura do feno bamboleante nas tuas costas. Transportas a memória e o que com ela não fizeste, a memória da ilusão e a ilusão da memória. Percebi-te, infinitamente espartilhada, quando, sem pressa, me deliciei a conjungar as mãos no horizonte. Vinhas de este. Trazias numa mão a pressa de amar e na outra o esquecimento do amor. Estava sentado na posição de lótus. Acarinhava ao centro o passado no espaço do presente e o futuro no espaço do teu olhar. A amplitude assutou-me! Tive que desenhar-te no mapa para te poder conter em mim. Perdi nesse momento a noção da finitude. Encontrei o medo de sentir. O medo de perder adquiriu-o o meu silêncio. Nesse momento intemporal, insurgiu-se o que eu temia: a figura passível de ser amada. Foi uma brusquidão que acelerou o tempo. Vi as rotas, os fumos, as caras, as saudades, as partidas, as caras tristes, cáries da saudade. Agora, parto em busca de uns espaço e tempo renováveis, a partir dos quais me possa lançar para a imensidão. Seguir-se-à a inconsciência, da emoção de explicação tácita, exaurível de demónios, insofismável. Descanso nos telhados do mundo. A vida passa, colhe flores e arranca pétalas..escolhe rumos. Calhou-nos a corola, calhou-nos o cerne da vida, calhou-nos viver sem tempo e espaço. Algures no espaço estelar, vejo daqui, brincam e degladiam-se beijos cortantes, abraços carnudos, cabelos sublimes. Qual sansão, o mundo vem atrás e traz a infinitude do acreditar, do fulminante reinado do sublime. Erguemos as mãos. Quem serão elas? Mãos de quem?

12.26.2005

(Passagem das Horas)

Multipliquei-me, para me sentir,
Para me sentir, precisei de sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravassar-me,
Despi-me, entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente

Álvaro de Campos


As palavras são preciosas. A cada gota um olhar, a cada lágrima um desejo, cada amante um navio. O mar, esse mar do norte levou-me para ti. Dos teus braços, a represa dos sonhos.

Speechless.

12.17.2005

Subversão do perpétuo

Eu só poderia gostar de ti se fosses muitos...não que fosses muitos iguais. Só te gostaria de abraçar se fosses diferente. Tu infirmas o ventos, tornas a minha voz exaurível. Imbricas o gladiador que me derruba a consciência. Tu és diferente e quando olho para ti, por inacreditável que pareça, não me vejo. És meu criador, meu servo, meu amante? Abandonáste-me...vejo-te assim nas noites quentes bafejadas pela nossa presença, vejo-te dialogando comigo, pedindo-me sonhos e memórias, ventos de mudança, canções perdidas. Que te dei eu? Calei-me. Pois caláste-te quando eu te mandava falar. Mentia, subvertia-me. Mentia as minhas verdades porque não conseguia ser verdadeiro o suficiente para te mentir. Mentia para te mentir não te dando verdades sobre mim. É culpa minha. Não te apoquentes. Foi culpa minha. Eu que tenho ideologia própria, um sistema multiuniversal distinto do teu, que se passa comigo? E tu porque é que não ajudáste também? Entorpecido, enganado, pousado sobre a vida, deslizando sobre a podridão do discurso único. Também não o ajudáste. Não tens voz audível...soas a radiofonia encarcerada. Emites apenas para ti. Não queres saber de ninguém. És uma paisagem de pedras verdes porque verdes são as tuas mãos tóxicas. Pois bem, estou diferente e por isso tu estás diferente. Já me sinto na tua consciência. Já sinto que tens uma consciência que mutila as muralhas de rostos que me separam de ti. Contradizes-me? Como ousas tal? És ilógico, vou-te fechar nas vozes do meu eu subterrâneo. És demasiado polifónico. E tu, tu atinente soldado traidor, quem és tu? Lutei contigo quando estavas sentado nas orlas da desesperança. Lembraste que fui eu quem te trouxe pela colarinho até ao peito da costa? Deves-te lembrar, disseste "Que areia! Quem me traz? Eu?". Lembro-me bem. Estavamos no Inverno, estação interior, Verão estação dos deuses. Era quente a revolução. Sem cravos, sem vida, sem revolucionar nada que vos permitisse revolucionar. Mas, esperem. Foi a nossa pequena revolução. Remamos noites e manhãs infindáveis e anulámos tardes quentes de mais. O frio excomungável...o diabo nos pormenores...eu estava à espreita. Réptil. Quieto. Silencioso. Esperava não ver rugir no silêncio da noite. Tinha, tinhamos uma missão a cumprir. Eu só poderia gostar de ti se fosses muitos. Eu fui muitos que se escondiam das palavras uns dos outros. Eu só poderia gostar de mim se vocês fossem olhares para lá do meu alcance. Se fossem diferentes, substâncias parcas de amargura quando amargura servia o meu nome. Passaram-se 20 anos. Estamos mais velhos, estou mais velho. Cada vez vos excluo mais. Acreditem que não é por pensar que vocês são memorias antigos ou museus de guerra. Tenho uma praia de memórias. Consigo regurgitar ódios. Consigo abraçar amores. E consigo abraçar-te. A ti também...a ti,....tu ainda te lembras de mim? Vivemos de costas voltados 20 anos, praticamente desde que te criei. Sim, sempre fui um espelho baço dos teus desejos, amâlgamas de efeitos sem substrato, folha sem raíz. Mecânico sem mecânica, professor sem aluno, aluno de mim mesmo. Autodidacta do esquecimento. Aperfeicoei-me sentado aos teus pés. Arrastaste-me sem piedade como se de ar o corpo fosse feito. Criaste numa prisão de sonhos, um terror de desejos, em que desejar é morrer mais e mais e mais e novamente, novamente, novamente, novamente. Faço as minhas pazes ao som desta música que traz memórias vivas, carne viva aos bocados, partes do meu corpo espalhado pelo multiverso que não foi fácil recuperar. A minha voz, poeta morto de uma pessoa vida, uma vida morta sem a iluminação das vossas consciências. Como é difícil perdoar-me. Arrepende-te bem. Arrepende-te devagar. Eu espero. Eu também. Eu não fujo, digo agora. Acuso-te de seres a voz do mundo. Acuso-te de não teres tido a sublime sensibilidade do tacto. Eu, odeio-te homem! Tu deixaste-me preso, enviaste-me para o esquecimento! Olha para mim! Eu não olhei para ele. Cobarde, sei que sou. Olha para mim homem despersonalizado! Olha para ti! Não consigo...és demasíado dependente..de mim. Não te quero mas não está nas minhas mãos excluir-te. Exclui-me, mata-me, desintegra-me, cala a minha boca calando a tua. Testa-me. Sou um roteiro sem fim. Não acabarei, não definharei. Serei menos que tu nas emoções quando me emocionar. Serei tanto como vocês quando de mim quiserem a minha vida. Tomem-na! Não receio o discurso da subversão. Desautorizem-se, corrijam-me. Engano-me, minto-me, multiplico-me, extravasso-me, inquieto-me, subverto-me. Renasço.

12.10.2005

Momento

Eles são bebés de guerra. São demónios. Flores gigantes que arrancam do céu os sonhos que vêm de longe. São troncos velhos, de alecrim, microscópicos. Somos isto. São conversas macroscópicas, conversas em que o mundo fala a nossa voz. As nossas vozes. Somos isto também. Sou isto. São bolurentos momentos de figuras invertidas, espelhos das marés. Olhos fechados, mãos abertas, costas navios flutuantes nos céus. Sonhos, somos isto. São, sou aquele. Há consciência da partida. Falo de mim para mim. Eles são livros sem letras, letras sem forma. Vejo-me e dou-me a olhar. Há consciência na chegada. Não há consciência. Abro a porta, são eles, eu, que partimos. É um cubo invertido, é uma bola invertida. É como o mundo, eles, eu, tu, mais distantes do que longínquos, apenas não tão perto como de nós próprios, de mim próprio. Fala do plural no plural. Eles são eu mas eu não consigo ser eles. Eles são momentos de sol em brisas de nevoeiro, neblina....que afuguenta os debates monológicos de fim do dia, que chamam a diferença. Eles são rios que escorrem nas lágrimas do xisto. Sou de mármore. Talvez uma flor ininteligível...quem sabe, o raio de luz morto caído no chão esvaziado em sangue. Sou tão lento como ele e ele mais rápido do que eu. Tu. Quem és tu? E tu que vês? Não falas, não vês, não sentes...o que és? Eles são de tempo. Fui, era. És pó sedimentado nas memórias. Serei. Sou o vento migratório, transporto as minhas poluições, as nossas, as tuas. São ortodoxos, sou liberal, somos democratas. São de papel, inscritos na água, sem rasto. Eles são novos, vestidos a rigor, demasiado bonitos para serem sombras. São de carne sem sangue, de músculos desfeitos. Articulam discursos que saem das suas bocas como as penas saem da minha. São casacos feitos em casa, fatos de palhaço, de índio, de quem será presidente. São vários e são tristes. São demasiado felizes para serem tristes. Tu, Wodelsim, quem sou? Escreves e não paras. És uma contradição. Escreves coisas sem sentido esperando delas sentido. Wodelsim, és um impróperio. Fazes mal! És uma serpente com coração de dador de orgãos. És uma alma ambiciosa. Corres de mais. Eu sou como tu dizes, apenas um existente escondido. Não queria ser indelicado mas mais pareces um comentário à inversão estética da minha vida. Eles são sinos, rugem como o sopro mais silencioso de uma noite de neve. São savanas áridas, em que nos molhamos, em que te molhas. Arrancas as balas do chão, sintéticos da vida. Ele é engenheiro, tirou um curso nas universidades do tempo. Cria aparelhos que conectam a vida à inexistência. É brilhante e baço, e não gostas muito de mim. Sim, eu não deixo de gostar dos cais de poemas que trazes às costas, íngremes e sublimes. Castanhas como a água que corre nas minhas veias. Sou de barro. Escreves-me de barro e falas comigo, modulando-me a voz, moldando-me o corpo, rotulando-me a identidade. Quem queres que eu seja agora que escrevo para ti?

11.30.2005

De um momento para o outro....

Tudo, ou quase tudo o que parece poder mudar, muda. Muda sem esperança nem remorsos. Muda simplesmente. E não são só dicotomias. Não só saltos entre polos imaginados. Tudo muda. Sem agravo. Muda, uma profusão de horrores. Uma salada iníqua do inimaginável. Muda a pele, descolora. Caem as árvores, a solidão de morrer fica. Num momento tudo o que é sonho é ainda mais sonhável...entenda-se sofrível. Sofrer sonhando e sonhando sofrer a dor que merece sofrer. Merece, digo eu. Ninguém mais diz. Ninguém a sente, nem o poeta que escreveu neste tom há mil anos atrás. Nem eu, apenas a imagino. Faço dela as minhas velas e deixando os olhos em terra, levo apenas a capacidade de ver...o que não quero ver. O toque, mecânico, esgrimável, deductível na pele. O vento, esse que não pede licença, não compreende. Ondas vermelhas e azuis. Como variam elas sem que se mudem. Mudam-se os cabelos, ficam troncos. Os pés desfazem-se, as pessoas voam. Eu fico. Eu espero, eu vejo...não vejo o que quero ver. O vento está forte. O vento vai mudar de direcção mas não sofismará as escarpas que repousam em duas mãos de barro abandonadas na margem. Tudo muda e muda depressa, sem desesperança. Hoje será o mundo um lugar inabitável, corrosivo, exagerado. É sempre exagerado, e sempre exagerada será a reunião dos seres. Será sempre múltipla, e múltiplas serão as suas queixas e preces. Nem se darão conta que as coisas não mudam. Não. Mudam de mais mas sem mudar. nem se transformam. São gotas de chão que a imaginação caminha. Não existe. Ficou em terra. Ficou....com uma irritante e agustiante dor total!! E repousa. Como uma canção. As notas estremecem o corpo, não dizem nada, não falam, não nos ouvem. São egoístas, assim como as dores de querer mudar a dor. Talvez apenas, sofrimento, mais que dor. Ponho na balança, disco um código e tenho a fórmula. É longe onde ele está. Secalhar não virá...para me ver. Secalhar virá de grandes descobertas, coberto em pesadelos mas com prendas de Outono. E aí a vida será novamente uma mudança longa, como a dos répteis que habitam nos cofres do tempo. Um tempo longo que não parece mudar o mundo. No entanto, não espero mais. Vou lá para fora fazer-lhe companhia. Já mudei demais por escrevê-lo demais. Resta-me dizer-lhe.."estou aqui", não vim para dizer adeus, apenas para dizer que o mar que leva e que por vezes não traz, não é o mar. O mar que tenho aqui nas minhas mãos é o mar em que tu habitas. Não volta, não irá, ficará para sempre. Nada muda e tudo muda. Banal, original? Pergunta-te quando conseguires decifrar que anuências te sugerem as mudanças quando elas não querem saber de ti….apenas florescer para viver, morrer para florescer, morrer para viver. Sim, também é verdade, ninguém foi mas também ninguém ficou em excesso. Nada muda, nada muda e muda tudo.

11.27.2005

Exotopia


Fico chateado quando a fluidez das imagens é perturbada na sua sincronicidade. Que barulho! Sinto-te que me estás a ler. Sinto-te com os teus sentimentos a retirar-me elos do pensamento. Estás a roubar-me a paz, sabes? Estás a chatear-me com o teu sentimento maior de luminosidade, a consciência, de que apesar de me estares a invadir estás a alimentar-me para te poderes ler comigo. Assisto sem rancor à vandalização dos conteúdos da minha memória. Estudo semiológico. Seu semideus, que sismos me provocas? Abandono-me mas tu não me abandonas. Segues-me e com um pouco de identidade mostras-te quase a descoberto. Mostras-me as narrativas que gostavas que eu tivesse criado quando tu dialogavas o teu rosto. Dei-te voz quando a procuravas e dei-te a forma quando procuravas declarações. Volto agora a mim. Deixo-te de lado ou julgo deixar. Mas não quero saber que estás aqui. Não posso crer que me sugas o que ainda não te dei a sugar. Não posso crer como me transformaste as memórias, fazendo lembrar-me daquilo que não guardei. Diria que me vilipendias. Diria que te vilipendias. Diria que se não estivesses já na tua voz aquilo que a minha voz vai confirmar, poderíamos ser dois. Por enquanto vamos ser um. Se me contradigo? O que achas? Não contenho multidões mas contenho as tuas multidões que me seguram com cordas bem fortes quando escorrego da minha posição. Felizmente estás lá para não me dar sentido e por isso fornecer-me a coerência.

11.25.2005

Quero conhecer-te! Vamos caminhar...

Se eu não te tivesse conhecido, a dor de não te conhecer seria a flor do desejo de te conhecer. Seria fingir que não te conhecia porque sensual seria a tua estranheza. Porto de sonhos. Serias a difusão do sonho imperturbável. A dor de não te conhecer seria como que engolir as estações, substituindo-as pela ânsia de te conhecer. Conhecer-te é então um pouco como a alegria de te explorar ao longo do beijo infinito insofismável. Esquecer-te agora seria adoecer a dor de não te conhecer e com isso adoecer a vida que em mim te procuraria e a vida que em mim não te procuraria. Seria morreres na concepção, seria eu morto na concepção do amor como insubstituível do teu olhar, do nada preenchido pelo teu traço que desenha o caminho do todo que nos cria. Não te conhecer seria adoecer menos do que esquecer-te mas não seria nada mais do que procurar-te. Procurar-te. Vamos lá então. Vamos caminhar.