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5.06.2011

Explicação do resultado no PS nas últimas sondagens

De acordo Carlos Mareco @cmmareco no twitter

Ontem no site da RTP: "Cerca de 30% dos portugueses sofrem de perturbações mentais". Sondagem divulgada: "Sócrates recolhe 30% dos votos"

Está tudo explicado. LOL

4.12.2011

Não dizer mentiras



Aqui.

A cidadania de Nobre e as elites hipócritas

Toda a gente fala da abertura da política à sociedade, seja lá isso o que for. Eu diria que talvez fosse importante que a política se abrisse à política e que a sociedade se abrisse à sociedade. Ambas parecem estar com grande prisão de ventre.

Talvez todos os hipócritas que gostam da cidadania de uma forma estranha percebam o que a Constituição da República Portuguesa refere se for transcrito em inglês. É que em Português parece estar a ser difícil fazer sentido dos motivos que justificam a crítica.

Poderão criticar o Fernando Nobre pela campanha que realizou na candidatura à Presidência da República. Também não gostei. Muito menos gostei daquela expressão completamente exagerada do "só me tiram daqui com um tiro na cabeça". Foi muito infeliz. Mas porra, o homem é mais do que aquilo! Já fez muito pelo País e merece algum respeito pelo trabalho que desenvolveu ao longo da sua vida. É um orgulho para Portugal ter uma instituição como a AMI. Já lá fiz voluntariado. Sim, sem ganhar um tostão. Terei praticado a "cidadania"? Quem sabe! Será melhor perguntar ao Vitalino Canas.

De facto, todas as críticas e desilusões só demonstram que a escolha faz sentido, nem que não seja para agitar as consciências de muitos. Já todos sabemos que um homem bestial passa a ser uma besta muito facilmente. Talvez porque os homens são facilmente adorados e rapidamente queimados pelos seus próprios seguidores.

Num Portugal estranho, o Primeiro Ministro demissionário é um patriota (nacionalista); o Fernando Nobre um traídor perante aqueles que votaram nele. Afinal, votaram nele ou em outra coisa qualquer que não sabem muito bem o que é? Votaram na utopia da ausência da política? Da quimera do independente que surgiria por cima do sistema político e lhe aspiraria as impurezas?

O Manuel Alegre é o auto proclamado homem da cidadania que acha que o Fernando Nobre tem uma cidadania muito "flexível", esquecendo-se que já foi candidato contra e apoiado pelo PS. Exercício de cidadania.

A identificação com programas e pessoas de vários partidos, em diferentes momentos históricos, parece ser uma condição para justificar uma quase patologia cívica.

Em Portugal há cidadania de primeira e a cidadania de segunda. Todas as mentiras e incompetência dos governos são um exercício político digno e de cidadania de primeira; uma adesão ao projecto do PSD, neste momento e por parte do Fernando Nobre, é um acto de cidadania de segunda. Assim parece.

Há várias coisas que o FEEF e o FMI não trarão e uma delas é uma maior consciência da liberdade e responsabilidade individuais, assim como do sentido de comunidade. Tenho pena mas esse caminho será longo e penoso.

Abram alas para a Constituição Portuguesa.


CHAPTER II

Rights, freedoms and guarantees concerning participation in politics

Article 48
(Participation in public life)

1. Every citizen has the right to take part in political life and the direction of the country’s public affairs, either directly or via freely elected representatives.


Article 51
(Political associations and parties)

1. Freedom of association includes the right to form or take part in political associations and parties and through them to work jointly and democratically towards the formation of the popular will and the organisation of political power.

2. No one may be simultaneously registered as a member of more than one political party, and no one may be deprived of the exercise of any right because he is or ceases to be registered as a member of any legally constituted party.

With love,

The Constitution.

4.10.2011

A etérea narrativa de Sócrates

No seguimento da abordagem feita aqui, surgiu-me a seguinte questão: será que ele sente culpa? Será que ele sente remorsos? Será que ele sente algum tipo de polifonia interna?

Isto tudo porque não há ponta de saúde mental por onde se pegue quando se analisa a narrativa major: a realidade é aquilo que eu desejo, eu desejo muito, a realidade é a minha narrativa, a realidade sou eu.

Tenho que confessar, não conseguimos ter um Primeiro Ministro que fosse inspirador, mas conseguimos ter um que foi e é destruidor e ao mesmo tempo gerador de análises muito interessantes.

Se fosse apenas pela riqueza das análises que a identidade deste homem sugerem, gostaria que ele ficasse mais tempo. No entanto, o país não é uma clínica ou aula de Psicopatologia.

Começo seriamente a inclinar-me para a possibilidade de haver outra explicação para a esta persistente e aglutinadora forma de ser.

A criação de uma narrativa que engole todas as expressões de diversidade que lhe poderiam fazer frente ou integrá-la, leva a que toda a expressão identitária e, neste caso, pública, seja difícil de romper. Daí que não exista um mínimo de pudor em dizer coisas mutuamente exclusivas com igual convicção: o pendor criativo deste tipo de narrativa reduz toda a contradição no seu caminho e dá-lhe toda a coerência possível.

Sócrates é, de facto, um grande problema para o país. Não que eu tenha alguma animosidade pessoal com o senhor. Provavelmente vive atormentado pela possibilidade de rejeição. Provavelmente procura ansiosamente toda a gente que o adore sem condições e repudia toda a gente que o poderá questionar. Sim, porque questionar as suas opiniões será questionar a sua essência e isso custar-lhe-á um esforço de integridade pessoal que essa narrativa não permite.

A narrativa de Sócrates está enclausurada numa grande colmeia de afincados bajuladores. Por algum motivo chamaram-lhe menino de ouro do PS. Não, é um menino mas não de ouro. É um menino frágil na sua polifonia interna, robusto na sua resolução. Lá dentro, é um menino que procura o carinho de outros de forma bastante pérfida: manipulando as posições identitárias face à sua narrativa major.

Como vítima e salvador provoca compreensão e respeito dos acólitos; como político destrói a harmonia de um povo.

3.28.2011

Não sejas parvo

Ninguém terá justificação para se deixar passar por parvo. Quem estiver com problemas de memória poderá rever os conteúdos que a web disponibiliza. Basta procurar no Google.

Para outras questões mais graves, estarei disponível para a realização de consultas clínicas de Psicologia.

Prometo não utilizar o DSM para rotular a parvoíce, falta de memória ou incapacidade para realizar cognições saudáveis.

Cumpro a promessa de praticar preços inversamente proporcionais aos resultados da irresponsabilidade e incompetência do Primeiro Ministro demissionário.

Não aceito consultas com pessoas que falem Espanhol. Não possuo fluência suficiente da língua para o fazer.

Melhores cumprimentos,

Ricardo Almeida

2.27.2011

O pêndulo eu-tu

Os problemas poderão pertencer-te e poderás ser o/a agricultor/a árduo das tuas misérias, mas nunca o problema serás tu, como essência "arelacional". Os problemas criam-se quando as respostas dadas às situações são desadequadas e, consequentemente, acolhemos essa inadequação no nosso zoológico identitário. Contudo, deveremos olhar com atenção para os equilíbrios que se jogam na relação eu-tu/outro/algo. É nessa relação que as imagens são criadas, em que os espelhos ganham força e em que o nosso olhar perscrutador irá buscar as respostas.

Eu...Quem?

Simples como a gravilha na estrada: por que motivo será tão difícil libertar-mo-nos das nossas narrativas cimentadas pela nossa experiência de vida? Por que motivo fazê-lo implica sentirmos uma profunda sensação de estranheza relativamente à nossa existência? Por que motivo temos tanta dificuldade em mudar? Em nos transformarmos?
Colados numa estrutura identitária sólida e exuberante, como poderemos experimentar mudanças substanciais e guiadas pela nossa necessidade autoral de criarmos novos mundos?
A nossa identidade e as suas posições identitárias giram à volta de um eixo composto por três compostos:

- a relação. A elicitação da pergunta como resposta relacional. A incontrolável necessidade "to relate";
- a época histórica. É-nos permitido aquilo que é assumido nas normas culturais;
- a linguagem. Construímo-nos através da construção partilhada de significados e narramos as nossas histórias em auditórios internos e externos.

Serão estes os compostos químicos que nos calçarão as mudanças. Falta os sapatos, falta a corrida, faltam os resultados.

Por que motivo é tão difícil mudar?

2.21.2011

A saúde mental dos Portugueses

Alguns dedicam-se obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas.
Recentemente, ficámos a saber, através do primeiro estudo epidemiológico nacional de Saúde Mental, que Portugal é o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais na população. No último ano, um em cada cinco portugueses sofreu de uma doença psiquiátrica (23%) e quase metade (43%) já teve uma destas perturbações durante a vida.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque assisto com impotência a uma sociedade perturbada e doente em que violência, urdida nos jogos e na televisão, faz parte da ração diária das crianças e adolescentes. Neste redil de insanidade, vejo jovens infantilizados incapazes de construírem um projecto de vida, escravos dos seus insaciáveis desejos e adulados por pais que satisfazem todos os seus caprichos, expiando uma culpa muitas vezes imaginária. Na escola, estes jovens adquiriram um estatuto de semideus, pois todos terão de fazer um esforço sobrenatural para lhes imprimirem a vontade de adquirir conhecimentos, ainda que estes não o desejem. É natural que assim seja, dado que a actual sociedade os inebria de direitos, criando-lhes a ilusão absurda de que podem ser mestres de si próprios.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque, nos últimos quinze anos, o divórcio quintuplicou, alcançando 60 divórcios por cada 100 casamentos (dados de 2008). As crises conjugais são também um reflexo das crises sociais. Se não houver vínculos estáveis entre seres humanos não existe uma sociedade forte, capaz de criar empresas sólidas e fomentar a prosperidade. Enquanto o legislador se entretém maquinalmente a produzir leis que entronizam o divórcio sem culpa, deparo-me com mulheres compungidas, reféns do estado de alma dos ex-cônjuges para lhes garantirem o pagamento da miserável pensão de alimentos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque se torna cada vez mais difícil, para quem tem filhos, conciliar o trabalho e a família. Nas empresas, os directores insanos consideram que a presença prolongada no trabalho é sinónimo de maior compromisso e produtividade. Portanto é fácil perceber que, para quem perde cerca de três horas nas deslocações diárias entre o trabalho, a escola e a casa, seja difícil ter tempo para os filhos. Recordo o rosto de uma mãe marejado de lágrimas e com o coração dilacerado por andar tão cansada que quase se tornou impossível brincar com o seu filho de três anos.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque a taxa de desemprego em Portugal afecta mais de meio milhão de cidadãos. Tenho presenciado muitos casos de homens e mulheres que, humilhados pela falta de trabalho, se sentem rendidos e impotentes perante a maldição da pobreza. Observo as suas mãos, calejadas pelo trabalho manual, tornadas inúteis, segurando um papel encardido da Segurança Social.
Interessa-me a saúde mental dos portugueses porque é difícil aceitar que alguém sobreviva dignamente com pouco mais de 600 euros por mês, enquanto outros, sem mérito e trabalho, se dedicam impunemente à actividade da pilhagem do erário público. Fito com assombro e complacência os olhos de revolta daqueles que estão cansados de escutar repetidamente que é necessário fazer mais sacrifícios quando já há muito foram dizimados pela praga da miséria.
Finalmente, interessa-me a saúde mental de alguns portugueses com responsabilidades governativas porque se dedicam obsessivamente aos números e às estatísticas esquecendo que a sociedade é feita de pessoas. Entretanto, com a sua displicência e inépcia, construíram um mecanismo oleado que vai inexoravelmente triturando as mentes sãs de um povo, criando condições sociais que favorecem uma decadência neuronal colectiva, multiplicando, deste modo, as doenças mentais.
E hesito em prescrever antidepressivos e ansiolíticos a quem tem o estômago vazio e a cabeça cheia de promessas de uma justiça que se há-de concretizar; e luto contra o demónio do desespero, mas sinto uma inquietação culposa diante destes rostos que me visitam diariamente.

Pedro Afonso, médico psiquiatra

Artigo publicado no Público em 21/6/2010, copiado à bruta do blog do Zé David Almeida http://zedavidalmeida.blogspot.com/